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76% das cidades mais violentas do mundo estão na América Latina

Das 50 cidades com as maiores taxas de homícidio do mundo, 38 estão na região. O Nordeste brasileiro domina 20% da lista

Gabrielle Gorder Chris Dalby Parker Asmann
29 Março 2022, 12.00
A América Latina continua sendo a região mais violenta do mundo
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Andrés “trifulkart” Trujillo

O ranking das cidades mais violentas do mundo em 2021 inclui, como esperado, uma forte presença dos centros urbanos da América Latina. A região concentra 38 das 50 cidades, com as oito mais violentas no México, de acordo com o relatório mais recente do Conselho Cidadão de Segurança Pública e Justiça Criminal do México (Consejo Ciudadano para la Seguridad Pública y Justicia Penal - CCSPJP).

Mas isso não significa que todas as áreas da América Latina estejam em risco. A lista revela padrões ou áreas que requerem mais atenção do que outras, desde o Valle del Cauca, na Colômbia, com três cidades na lista, aos pontos turísticos mexicanos, onde houve um aumento dos homicídios, passando pelo Equador, que infelizmente entrou no ranking pela primeira vez, até o nordeste do Brasil, onde se concentra a violência do país.

México novamente no topo da lista

O México há muito domina a lista de cidades mais violentas, apresentando consistentemente um número maior de centros urbanos do que qualquer outro país. E 2021 não foi diferente.

"O México é o epicentro mundial do homicídio urbano há três anos", e isso sem considerar as milhares de pessoas que desaparecem anualmente, declarou a organização.

Em 2021, a cidade mais violenta do mundo é Zamora, no estado de Michoacán, no México, assim como oito das dez primeiras da lista e 18 das 50 cidades totais. Na 40ª, Cancún retornou à lista em 2021, que não entrava na lista desde sua primeira aparição, em 2018, na 13ª posição.

Em 2021, Cancún foi responsável por mais da metade (337) dos 651 homicídios registrados no estado. Durante anos, uma próspera indústria turística incentivou construção excessiva e a rápida urbanização, o que contribuiu para o aumento da violência com a expansão do crime organizado na região.

Polos turísticos, como Cancún, são um ímã para redes criminosas por vários motivos. O fluxo contínuo de turistas dá aos grupos criminosos um certo grau de anonimato, permitindo que supervisionem mais facilmente suas operações de tráfico de drogas e extorsão, lavem lucros ilícitos e driblem ações das autoridades, segundo um estudo acadêmico publicado em 2020.

Recentemente, a violência entre grupos rivais e seus interesses se tornou mais imprudente, com tiroteios na praia e assassinatos em plena luz do dia. Em meados de março, as autoridades descobriram um "cemitério clandestino" na cidade, alegadamente ligado ao Cartel Jalisco Nova Geração (CJNG). Paralelamente a essa violência, a insegurança geral também cresceu. Em dezembro de 2021, Cancún foi uma das cidades em que seus habitantes relataram maior percepção de insegurança (85,5%), segundo a Pesquisa Nacional de Segurança Pública Urbana, divulgada pelo Instituto Nacional de Estatística e Geografia (INEGI).

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No entanto, a violência não afetou exclusivamente a Riviera Maya. Diversas cidades localizadas ao longo das rotas do narcotráfico também se encontraram entre as dez mais violentas em 2021, incluindo o hub de manufatura de Celaya, em Guanajuato, o importante centro de produção agrícola de Uruapan, em Michoacán, e cidades da fronteira entre os Estados Unidos e o México, como Tijuana, na Baixa Califórnia, e Ciudad Juárez, em Chihuahua.

No final dos anos 2000 e início dos anos 2010, Ciudad Juárez e Tijuana viram violência extrema causada por uma combinação de fatores, incluindo disputas entre cartéis de drogas, corrupção de funcionários do governo e forças de segurança, globalização e urbanização. Depois de alcançar estabilidade nas taxas de homícidio ao redor de 2018, ambas as cidades fronteiriças voltam a enfrentar picos de violência.

América Central apresenta melhora, por enquanto

Uma característica notável da lista das cidades mais violentas foi a ausência de El Salvador e Guatemala. Assim como em 2020, as duas cidades mais populosas de Honduras – a capital Tegucigalpa e San Pedro Sula – foram os únicos centros urbanos da América Central a entrar na lista de 2021.

San Pedro Sula, em Honduras, ficou em 32º lugar, com 327 mortes violentas e uma taxa de homicídios de quase 42 por 100 mil habitantes, enquanto a capital ficou em 39º, com 481 assassinatos e uma taxa de homicídios de mais de 37 por 100 mil habitantes, segundo o relatório. Em 2021, o país registrou 3.651 homicídios, uma taxa de quase 39 mortes por 100 mil habitantes, o que fez do país o terceiro mais sangrento da América Latina e Caribe naquele ano.

Ao longo de 2021, as autoridades hondurenhas registraram pelo menos um massacre por semana, com Tegucigalpa e San Pedro Sula concentrando cerca de 30% (16) das chacinas, segundo dados oficiais compilados pelo jornal El Heraldo. No entanto, as posições de ambas as cidades caíram nos últimos anos. Em 2019, San Pedro Sula ocupava o 15º lugar e Tegucigalpa o 33º.

Na vizinha El Salvador, uma queda recorde nos homicídios a partir de 2019 tirou seus centros urbanos da lista das cidades mais violentas. A última vez que a capital San Salvador esteve na lista foi em 2018 e, desde então, nenhuma cidade salvadorenha fica entre as 50 primeiras.

Embora o presidente Nayib Bukele atribua esse declínio ao Plano de Controle Territorial, seu principal plano de segurança nacional, e ao aumento da presença militar e policial na ruas, seus críticos citam uma crise crescente de desaparecimentos e as alegadas evidências ​​de negociações entre seu governo e as gangues MS-13 e Barrio 18 como principal explicação para essa redução na taxa de homícidio.

Esta não seria a única vez que as negociações estatais com facções criminosas resultam em uma diminuição substancial da violência. Uma controversa trégua negociada em 2012 por funcionários do governo do ex-presidente Mauricio Funes também levou a uma queda acentuada nos homicídios, embora a violência tenha disparado quando o acordo foi quebrado três anos depois.

As negociações atuais também mostrariam sinais de desgaste. De fato, uma onda de violência que deixou quase 50 mortos em apenas 72 horas em novembro de 2021 ofereceu um forte lembrete da velocidade com que as gangues podem mudar de rumo e aumentar a violência para promover seus interesses.

Finalmente, na Guatemala, os homicídios aumentaram cerca de 10% em 2021, após uma tendência de queda que durou dez anos. Mesmo assim, os homicídios na Guatemala hoje estão bem abaixo do pico atingido em 2009, quando o país registrou mais de 6,5 mil homicídios, uma taxa equivalente a 46,5 por 100 mil habitantes.

Os conflitos sociais e econômicos continuam sendo um dos principais motores da violência na Guatemala. Os homicídios estão concentrados em áreas controladas por gangues, nas principais rotas do narcotráfico ao longo de suas fronteiras com o México, Honduras e El Salvador.

Inclusão do Equador

A inclusão da cidade portuária de Guayaquil, na 50ª posição, marca a primeira vez que uma cidade equatoriana aparece na lista desde que começou a ser publicada, em 2013. No entanto, parecia inevitável. No Equador, a taxa de homicídios aumentou em 2021 mais rapidamente do que em qualquer outro país da América Latina e do Caribe. Os assassinatos vinham praticamente dobrando ano após ano, à medida que a guerra entre gangues concorrentes saía do controle.

A notícia causou consternação no Equador, onde funcionários e especialistas imediatamente saíram em sua defesa. Gustavo Zúñiga, presidente da Corporação de Segurança Cidadã de Guayaquil (CSCG), disse que Guayaquil não é uma cidade violenta, mas "vítima do narcotráfico". A cidade e seus arredores registraram 621 mortes violentas em 2021.

Carlos Sevillano Páez, especialista equatoriano em segurança nacional, questionou a inclusão de Guayaquil, afirmando que se a CCSPJP tivesse obtido dados precisos de países como a Venezuela, o Equador teria ficado de fora da lista.

Se Guayaquil merece ou não estar na 50ª posição é irrelevante, dada a rápida deterioração da situação na cidade.

Confrontos ferozes entre cartéis de drogas se espalharam por toda a cidade, criando um padrão de violência generalizada. O porto de Guayaquil, principal ponto de saída da cocaína traficada pelo Equador, é um cobiçado território criminoso. Os bairros na rota do porto tornaram-se focos de constantes confrontos entre gangues.

Guasmo Sur, bairro localizado atrás do porto principal, tornou-se o setor mais violento de Guayaquil, com tiroteios corriqueiros entre gangues locais em disputas territoriais.

Com nove cidades na lista, a região nordeste do Brasil responde por quase 20% do ranking de 2021

Colinas de la Florida, a noroeste de Guayaquil, testemunhou vários tiroteios e massacres. Em outubro do ano passado, chamou atenção especial quando o velocista olímpico Álex Quiñónez foi morto a tiros ali.

Do outro lado do rio de Guayaquil, a cidade de Durán talvez tenha sido palco da pior crise da violência. Em fevereiro deste ano, dois corpos foram pendurados pelos pés em uma passarela de pedestres sobre uma rodovia principal, uma prática nunca vista antes no Equador. As duas facções supostamente envolvidas, Águilas (Águias) e Chone Killers (Assassinos Chone), estão envolvidas em uma disputa nacional do narcotráfico.

A origem desta guerra também se encontra em Guayaquil, especificamente na Penitenciária do Litoral. Em 2021, o maior grupo criminoso do Equador, Los Choneros, se fragmentou quando subdivisões internas se voltaram contra a estrutura principal. O resultado foi uma série de terríveis massacres dentro da prisão, alimentados por armas automáticas e granadas. Em fevereiro de 2021, 34 prisioneiros foram mortos na penitenciária. Em setembro, 119. E em novembro, outros 68.

Até agora, a violência tem mostrado poucos sinais de abrandamento. E com quase 300 homicídios em Guayaquil e arredores entre janeiro e março de 2022, a cidade pode terminar este ano em uma posição mais alta no ranking.

Hat-trick do Valle del Cauca, na Colômbia

Quatro cidades colombianas apareceram no ranking de 2021. As três primeiras, Buenaventura, Cali e Palmira, estão no mesmo departamento: Valle del Cauca.

Situada na costa do Pacífico e na fronteira do departamento produtor de coca de Cauca, o Valle del Cauca é uma localização central no comércio de narcóticos.

A cidade portuária de Buenaventura ficou em 13º lugar na lista, não tendo aparecido em 2020. A cidade é fortemente disputada por cartéis de drogas, que buscam o controle das rotas marítimas de cocaína com destino à Ásia, aos Estados Unidos e à América Central. Duas pessoas são assassinadas a cada três dias por casos relacionados a extorsão, roubo e outras economias criminosas, segundo a Fundação Paz e Reconciliação (Pares).

Especialistas locais em questões de segurança e defensores de direitos humanos afirmam que o aumento da violência se deve à presença de uma estrutura narco-paramilitar e uma guerra entre duas facções rivais de uma divisão de Los Urabeños.

Na 24ª colocação, a segunda cidade colombiana da lista é Cali, capital do Valle del Cauca, localizada a 100 km de Buenaventura. Historicamente, esta cidade opera como um centro de trânsito, lavagem de dinheiro e tráfico de drogas.

Andrés Villamizar, ministro da Segurança de Cali, descreveu a cidade como um "microcosmo" de todas as questões de segurança na Colômbia, o que ajuda a explicar por que Cali aparece consistentemente na lista das cidades mais violentas.

De fato, a cidade subiu na lista devido a um aumento de 13% em sua taxa de homicídios em 2021. Cerca de 80% das gangues de Cali estão concentradas em apenas seis bairros. Em cinco deles, os assassinatos aumentaram exponencialmente.

Mas o aumento da violência pode ser atribuído em grande parte a uma série de protestos anti-governamentais e da repressão policial que ocorreram entre maio e junho de 2021. Vários grupos criminosos aproveitaram a distração gerada pelas manifestações populares para implementar suas agendas, muitas vezes conflituosas, incluindo o Exército da Liberação Nacional (ELN), facções dissidentes das desmobilizadas Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC), e organizações paramilitares.

Os protestos também coincidiram com um pico de violência na cidade vizinha de Palmira, que ficou em 34º lugar na lista. A cidade apareceu pela última vez em 2019, na 37ª posição. Palmira abriga o principal aeroporto do Valle del Cauca, que as autoridades dizem ser utilizado por grupos criminosos para exportar cocaína e ouro ilegal, assim como para importar armas dos Estados Unidos.

Violência generalizada no Nordeste do Brasil

Com nove cidades na lista, a região nordeste do Brasil responde por quase 20% do ranking de 2021. Embora não seja tradicionalmente base de gangues proeminentes, nos últimos anos a região viu a chegada das maiores facções de drogas do Brasil, que procuram controlar o fluxo de drogas provenientes da Bolívia e do Paraguai, juntamente com as rotas marítimas para a Europa.

Desde 2016, o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV), as principais facções criminosas no país, têm alocado recursos humanos e financeiros significativos para controlar o Nordeste. No entanto, nenhum conseguiu dominá-lo.

Ambas as organizações encontraram resistência de grupos locais profundamente enraizados, que roubam remessas ou reivindicam as rotas. Os Guardiões do Estado (GDE), facção criminosa do Ceará, tem conseguido frear o avanço dos ambos os grupos. O GDE e o CV têm travado uma batalha sangrenta pela cidade de Fortaleza, que ficou na 29ª posição do ranking.

O CV também tem outras batalhas na região. Em Salvador (28ª no ranking), enfrenta uma facção criminosa conhecida como Tropa do A. Composta por remanescentes de uma gangue local forçada a se integrar ao CV, a Tropa do A esteve envolvida em diversos homicídios na Bahia e arredores, em 2021 e 2022.

Na 33ª colocação, Natal, principal escoadouro de cocaína da região, também é palco de disputas. A cidade registra centenas de homicídios todos os anos, indicando que o controle dos bairros próximos ao porto é essencial para quem busca transportar, controlar ou mesmo roubar carregamentos de drogas.


Este artigo foi originalmente publicado pelo InsightCrime em inglês e em espanhol.

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