democraciaAbierta: Analysis

A América Latina está vivendo nova guinada à esquerda?

Depois do Chile, Honduras e Peru em 2021, Brasil e Colômbia podem rejeitar seus líderes de direita em 2022

Manuella Libardi
4 Fevereiro 2022, 12.00
O ex-presidente Lula poderia voltar à presidência do Brasil; na Colômbia, o ex-guerrilheiro Gustavo Petro lidera as pesquisas
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Paulo Lopes/ZUMA Press Wire/Alamy Stock Photo

Quando deixei os confins de casa alguns meses após o começo da pandemia de Covid-19, me assustei com cenas das que pensei ter me despedido na década de 90. Famílias inteiras nas ruas, crianças de até 4 anos pedindo troco no semáforo, homens deitados nas calçadas de bairros nobres, desmaiados de fome ou de intoxicação ou de uma combinação de ambos.

Essa realidade era comum na minha infância no Brasil, na esteira da crise hiperinflacionária. À medida em que cresci e o Brasil se tornou mais estável, um número crescente de brasileiros deixou as ruas. A pobreza caiu em números recordes entre 1992 e 2013, marcadamente depois de que Luiz Inácio Lula da Silva assumiu a presidência em 2003.

Três décadas depois, o Brasil e seus vizinhos latino-americanos voltam a níveis de pobreza não vistos em gerações. Em meio às crises econômicas e sociais agravadas pela pandemia, a região está vendo uma mudança em suas preferências políticas com a eleição de líderes de esquerda, após mais de uma década de governança de direita.

Eleições recentes no Chile, Honduras, Peru e Bolívia levaram a uma miríade de argumentos de que a América Latina está passando por outra Onda Rosa, o movimento político que viu a ascensão de líderes de esquerda em todo o continente no início dos anos 2000, incluindo Lula no Brasil, Evo Morales na Bolívia, Rafael Correa no Equador, Hugo Chávez na Venezuela e Michelle Bachelet no Chile. A região mostrou essa tendência mesmo antes da crise sanitária, com a eleição do kirchnerista Alberto Fernández na Argentina em 2019 e Andrés Manuel López Obrador no México em 2018. As próximas eleições na região, particularmente na Colômbia e no Brasil, podem fortalecer a onda.

Mas essa nova mudança é um verdadeiro voto de confiança na esquerda latino-americana ou um voto contra os atuais mandatários e, por extensão, uma demonstração pública de sua insatisfação com a situação atual da região?

Brasil e o possível retorno de Lula

Os candidatos ainda não lançaram suas candidaturas presidenciais no Brasil, mas alguns nomes parecem já definidos. Lula disse que vai decidir “em fevereiro ou março” se seu nome estará nas urnas em 2 de outubro como candidato do Partido dos Trabalhadores (PT), mas lidera quase todas as pesquisas desde que sua sentença criminal anulada em março de 2021 abriu as portas para sua possível candidatura. Uma pesquisa de 14 de janeiro mostra que 45% dos eleitores brasileiros pretendem apoiar Lula em outubro, abrindo uma vantagem de 22 pontos sobre Jair Bolsonaro, que ficou em segundo lugar com 23%. Embora Lula tenha liderado consistentemente as pesquisas, sua margem sobre Bolsonaro nunca foi tão ampla.

A popularidade de Lula parece transcender as preferências do espectro político e jogar com o antigo culto à personalidade latino-americano

Lula terminou seu segundo mandato em 2010 com uma impressionante taxa de aprovação de 87%, um recorde nos 37 anos desde o retorno do Brasil à democracia. A popularidade de Lula provou ter resistido às dificuldades da última década, mas seu partido não teve a mesma sorte. O gigante PT vem perdendo terreno político, visto tanto nas eleições gerais de 2018 quanto nas eleições municipais de 2020.

Meses antes de seu (controverso) impeachment em 2016, a sucessora e protegida de Lula, Dilma Rousseff, terminou o ano com uma taxa de aprovação de horríveis 9%. Outra figura importante do PT, Fernando Haddad, que foi derrotado por Bolsonaro no segundo turno das eleições de 2018, terminou seu mandato como prefeito de São Paulo com uma baixa taxa de aprovação de 17%.

O partido de Lula inegavelmente perdeu força. Lula não. Como principal representante da esquerda brasileira, a popularidade de Lula parece transcender as preferências do espectro político e jogar com o antigo culto à personalidade latino-americano. Lula foi um presidente de sucesso e oferece a melhor chance de colocar o Brasil de volta nos trilhos, mas sua liderança nas pesquisas eleitorais não parece apontar para o ressurgimento de uma esquerda coesa, como sua busca por aliados de centro-direita sugere.

Colômbia pode eleger primeiro líder de esquerda

Um conflito civil de cinco décadas, travado em grande parte no contexto da Guerra Fria, desenhou uma linha profunda entre a esquerda e a direita na Colômbia. Com os guerrilheiros organizados ao redor de ideais leninistas-marxistas de redistribuição de terras, os grupos armados que devastaram as áreas rurais do país em sua luta contra o Exército colombiano enviesaram a noção de esquerda no país. Enquanto a América Latina elegia líderes de esquerda no início e meados dos anos 2000, a Colômbia permaneceu solidamente dentro do campo de centro-direita.

Durante a maior parte do século 21, a Colômbia foi governada por Álvaro Uribe e seus protegidos, Juan Manuel Santos e o atual presidente Iván Duque. Mas a coroa do uribismo parece escorregar de sua cabeça, começando quando Santos assinou o histórico, mas divisivo, acordo de paz com as FARC em 2016, ao qual o próprio Uribe se opôs. Santos foi substituído em 2018 por um Uribista mais fervoroso, mas Duque está chegando ao fim de seu mandato como o presidente mais impopular da história da Colômbia.

2022 pode pôr fim a esse reinado. Depois de liderar a campanha presidencial mais bem-sucedida de um candidato de esquerda do país em 2018, Gustavo Petro vem liderando consistentemente as pesquisas diante da eleição presidencial de maio. Uma pesquisa de intenções de voto de 16 de janeiro mostra Petro encabeçando a lista com 25%, seguido pelo voto em branco, com 18%, e Rodolfo Hernández, com 13%. O candidato uribista, Sergio Fajardo, está em quarto lugar na pesquisa, com 8%.

Apesar de sua liderança estável, Petro estagnou nas pesquisas. Por outro lado, Hernández, um milionário que, no entanto, afirma ser do povo e representar o antiestablishment, está entre os poucos candidatos que continuam conquistando novos apoiadores.

O atual cenário sugere que os colombianos estão mais interessados em destronar o status quo do que em votar em ideais econômicos de esquerda

Petro, ex-guerrilheiro do M-19, atual senador e ex-prefeito de Bogotá, ascendeu em sua carreira política de mãos dadas com os movimentos progressistas da Colômbia, particularmente os feministas. Mas, assim como Lula no Brasil, Petro tem buscado cada vez mais fazer alianças com centristas em uma tentativa de ampliar seu eleitorado e chances de ganhar, uma manobra que muitos acreditam ter alienado sua base.

Isso pode indicar que os colombianos estão mais interessados em destronar o status quo do que em votar em ideais econômicos de esquerda. No entanto, os últimos anos mudaram os palcos políticos e sociais do país. Os colombianos mostraram sua insatisfação com a agenda neoliberal implementada nas últimas décadas durante os massivos protestos liderados por jovens em 2021, marcados pela repressão policial, brutalidade e morte. A revolta popular sugere uma mudança ideológica em um país há muito imobilizado pela centro-direita.

A velha esquerda pode confluir com progressistas?

Quase em uníssono, a região deu uma guinada à direita após meados da década de 2010, quando o preço das commodities caiu para alguns dos níveis mais baixos do século 21, devastando economias latino-americanas que ainda dependem em grande parte da exportação de matérias-primas.

Um movimento semelhante está acontecendo agora baixo circunstâncias também semelhantes. Existem diferenças, no entanto. Os latino-americanos estão cada vez mais conscientes dos efeitos da falta de redistribuição de riqueza sobre eles e a região, a mais desigual do mundo. Essa tendência antecede a pandemia, com 2019 tendo sido marcado por poderosos protestos no Chile, Equador, Colômbia e Bolívia.

O Chile, muitas vezes tido como o primeiro laboratório do verdadeiro experimento neoliberal, agora procura ser seu túmulo. Milhões de chilenos tomaram as ruas do país a partir de outubro daquele ano, iniciando um fenômeno beirando a revolução. Após a revolta popular, o país elegeu uma Convenção Constitucional extremamente progressista para reescrever sua Constituição e depois elegeu como presidente o progressista de 35 anos Gabriel Boric.

A América Latina viu os movimentos progressistas ganharem espaço nos últimos anos, demonstrado não apenas pelos poderosos eventos liderados por estudantes no Chile, mas também pelos avanços nos direitos das mulheres promovidos pelo movimento feminista cada vez mais organizado da região, que legalizou o aborto na Argentina em dezembro de 2020 e o descriminalizou no México em setembro de 2021.

Essa esquerda, no entanto, parece distante dos tradicionais líderes da Onda Rosa, como Lula e a vice-presidente da Argentina, Cristina Kirchner, que se concentraram amplamente no crescimento econômico através do extrativismo. Mas alguns analistas acreditam que a nova “onda verde” brotou da velha geração “rosa” e, como tal, tem o poder político de influenciar seus antepassados. De fato, Lula comemorou abertamente a vitória de Boric no Chile, mostrando que, apesar de suas recentes alianças com centristas, ele entende o poder da nova geração de esquerda.

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