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Além de pronomes e banheiros: o ativismo trans é sobre luta de classes

O novo ramo do 'marxismo trans' nos ensina que não devemos lutar pela inclusão, mas pela libertação

Misha Falk
6 Outubro 2021, 12.00
O marxismo trans entende a opressão das pessoas trans como parte da exploração capitalista
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Jessica Girvan/Alamy Stock Photo

Debates em torno dos direitos trans têm sido manchetes nos últimos tempos. A grande mídia tende a reduzir as demandas feitas pelos ativistas trans a quais pronomes as pessoas devem usar ou se as mulheres trans devem ser autorizadas a usar banheiros de mulheres ou participar de esportes femininos.

Embora essas questões sejam importantes, focar nelas pode vir às custas de uma luta mais fundamental – não apenas pelos direitos trans, mas pela libertação trans. Na academia e nos movimento de base, o novo ramo do marxismo trans entende a opressão das pessoas trans não apenas como resultado do preconceito das pessoas individuais, mas como parte da exploração capitalista.

A polícia de gênero

As pessoas trans têm muito mais probabilidade de fazer parte da classe trabalhadora do que seus equivalentes não trans. Um estudo de 2015 descobriu que, nos EUA, 30% das pessoas trans vivem na pobreza, o dobro da taxa de pessoas não trans. Entre pessoas trans latinxs, o número sobe para 43% e entre pessoas trans com deficiência é mais próximo de 50%. Muitas pessoas trans têm dificuldade de acessar ou manter empregos, uma vez que mais de três quartos sofrem discriminação no local de trabalho, nas formas de recusa de contratação, violência sexual ou violações de privacidade (como a identidade trans de uma pessoa sendo 'revelada' a colegas de trabalho, o que pode resultar em assédio ou discriminação).

Existem razões complexas para essa desigualdade sistêmica. Em grande medida, tem a ver com a construção do próprio gênero. Podemos pensar nas categorias binárias de gênero masculino e feminino como determinadas pela biologia, mas elas têm muito mais a ver com expectativas sociais. O feminismo marxista – com o qual o marxismo trans tem estreitas afinidades – nos ensina que o capitalismo impôs um binário de gênero estrito que ajudou a criar as condições para a acumulação de capital. De acordo com a teoria marxista, dentro do capitalismo, são os trabalhadores que criam o valor que os capitalistas obtêm como lucro. Esta é a fonte de exploração. Mas o feminismo marxista questiona: quem cria, alimenta e cuida desses trabalhadores desde a infância até a idade adulta para que eles possam produzir esse valor em primeiro lugar? Em grande parte, é o trabalho doméstico e de cuidado não remunerado feito por mulheres que sustenta a obtenção de lucro capitalista.

O marxismo trans entende a opressão das pessoas trans não apenas como resultado do preconceito das pessoas individuais, mas como parte da exploração capitalista

Os papéis de gênero e a desigualdade de gênero, portanto, servem um propósito indispensável para o capitalismo. O mesmo ocorre com o policiamento de gênero por meio da perseguição de pessoas que não se encaixam perfeitamente nas categorias de gênero masculino ou feminino, incluindo pessoas queer e trans. Romper o binário de gênero pode ameaçar a continuação da desigualdade de gênero, que ameaça todo o modelo capitalista. Os gêneros masculino e feminino são impostos desde o dia em que nascemos – basta pensar nos diferentes cortes de cabelo, roupas, brinquedos e até mesmo cores que são arbitrariamente atribuídos a meninos ou meninas. Como as pessoas têm expectativas tão fortes sobre elas com base em seu gênero, o medo e o ódio daqueles que não se encaixam estão profundamente enraizados e podem levar à violência e opressão em grande escala.

Algumas feministas radicais veem as pessoas trans como fonte de sua opressão e transformaram seus esforços de organização em ataques aos direitos das pessoas trans. Esse preconceito está contribuindo para uma grande onda de legislação anti-trans nos Estados Unidos. O marxismo trans entende que essa transfobia feminista serve um propósito para os capitalistas, dividindo feministas não trans e pessoas trans para que ambos os grupos sejam mais fáceis de explorar – a clássica estratégia de "dividir para conquistar".

Nossos corpos, nossa saúde

Feministas e ativistas trans compartilham muitas causas comuns. Devido à discriminação que enfrentam, muitas pessoas trans encontram sua renda por meio do trabalho sexual, um ramo de trabalho no qual as mulheres não trans também estão amplamente representadas. O trabalho sexual é criminalizado na maioria dos países, o que significa que é mais difícil de organizar. Como resultado, as profissionais do sexo correm um risco maior de violência e exploração, o que muitas vezes é esquecido pelas pessoas que culpam as profissionais do sexo pelo estigma que sofrem.

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De forma mais ampla, tanto feministas quanto ativistas trans devem lutar pelo direito à autonomia corporal. Isto é visto mais claramente nas lutas ao acesso a cuidados de saúde seguros e acessíveis, seja o acesso ao aborto ou à terapia de reposição hormonal (TRH). Embora nem todas as pessoas trans busquem TRH e cirurgia, elas são partes importantes das transições de gênero de muitas pessoas e, nos sistemas de saúde parcial ou totalmente privatizados muitas vezes têm um custo inacessível.

Pessoas trans enfrentam disparidades de saúde significativas devido a barreiras financeiras e socioeconômicas, discriminação e falta de conhecimento sobre saúde trans por parte dos prestadores de saúde. As instituições médicas têm uma longa história de patologização da identidade trans, descrevendo a experiência trans como uma doença mental e recusando o tratamento a pessoas trans cujas experiências não se enquadram em uma definição estreita do que significa ser trans. As consequências dessas barreiras sistêmicas e da discriminação avassaladora têm efeitos reais e materiais: um estudo com pessoas trans nos Estados Unidos descobriu que mais da metade havia considerado seriamente o suicídio.

A libertação de todos

Dentro do capitalismo, os trabalhadores sempre estarão sujeitos àqueles que controlam os recursos que os humanos precisam para sobreviver, e que assim determinam o que será produzido e o que será feito com a riqueza produzida pelos trabalhadores. A política muitas vezes se limita a promover as reivindicações de grupos específicos em vez da abolição das forças de exploração que criam as condições para que esses grupos sejam marginalizados em primeiro lugar.

As pessoas trans tornaram-se símbolos de progresso, mas esse tokenismo ofusca as formas em que as pessoas trans se organizam para mudar o mundo. Os papéis importantes desempenhados por pessoas trans nas lutas históricas foram ocultados e só agora estão vindo à tona. Nos Estados Unidos, foi a liderança de duas mulheres trans, Sylvia Rivera e Marsha P. Johnson, nos motins de Stonewall, em 1969, que deram início às paradas anuais do orgulho LGBT+. Mas o ativismo trans radical não parou aí. Depois de Stonewall, Marsha e Sylvia fundaram a organização STAR (Street Transvestite Action Revolutionaries) e o legado de seu ativismo vive em organizações como Sylvia Rivera Law Project, grupos de abolição de prisões liderados por pessoas queer e trans, Black Trans Lives Matter (Vidas Negras Trans Importam) e inspirou protestos contra ataques aos direitos das trabalhadoras do sexo e de pessoas trans no Brasil, em 2019.

O marxismo trans se recusa a separar ordenadamente as lutas das pessoas trans em uma categoria isolada. Em vez disso, abraça uma política de solidariedade com outros que estão lutando contra as mesmas forças de exploração. Pessoas trans estão se organizando como parte de movimentos feministas da classe trabalhadora, justiça racial, meio ambiente e de libertação das pessoas com deficiência. O marxismo trans sabe que a libertação das pessoas trans tem que andar de mãos dadas com a libertação de todos.

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