democraciaAbierta: Opinion

Gabriel Boric diante dos desafios da história chilena

Forças conservadoras continuam fortes no país e partidários do jovem presidente estão impacientes por mudanças. Conseguirá cumprir sua promessa?

Ariel Dorfman
17 Março 2022, 12.00
Os abraços vão continuar? Gabriel Boric abraça seu predecessor conservador Sebastián Piñera
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Pablo Ovalle Isasmendi/Agenciauno via Xinhua/Alamy

Quando Gabriel Boric, de 36 anos, tomou posse na sexta-feira como o presidente mais jovem da história do Chile, ele imediatamente passou a enfrentar a necessidade de resolver o que é paradoxalmente o problema mais antigo desta nação andina desde antes de sua independência em 1810.

Já em 1796, José Cos de Iriberri, comerciante chileno, enalteceu “a opulência e riqueza” da terra, enquanto lamentou: “Quem imaginaria que em meio a tanta abundância haveria uma população tão escassa gemendo sob o pesado jugo de pobreza, miséria e vício”.

É claro que o fantasma de Iriberri (que habitou uma província espanhola de menos de um milhão de almas) não reconheceria o Chile contemporâneo, uma nação de 20 milhões de pessoas que geme sob o jugo de problemas típicos do século 21. E, no entanto, ele observaria que a desigualdade, a injustiça e a corrupção continuam a assombrar sua terra natal. No entanto, observaria também a oportunidade única de mudança no horizonte.

Boric foi eleito porque incorporou um vasto movimento de cidadãos que saíram às ruas em outubro de 2019 para exigir um novo sistema político, prioridades econômicas diferentes e, acima de tudo, dignidade para os menos favorecidos: uma série de medidas drásticas que, se decretadas, poderiam em breve tornar obsoleta a declaração melancólica de Iriberri.

O sucesso da agenda radical de Boric dependerá de vários fatores.

Acima de tudo, em um país assolado pela pandemia e descontentamento social, ele precisará aumentar os impostos dos super-ricos e grandes corporações – especialmente no setor de mineração – para financiar reformas indispensáveis ​​na saúde, educação e previdência, um salário mínimo mais alto e políticas ecológicas agressivas, bem como o empoderamento de mulheres e aumento da governança regional.

Para receber essa receita, o governo de Boric terá que negociar com um Congresso em que sua coalizão é minoria. Moderar algumas das metas mais ambiciosas pode levar a alguns acordos, mas também pode decepcionar – e mobilizar – muitos de seus seguidores mais fervorosos: eles votaram em um líder que prometeu enterrar o neoliberalismo e seus tentáculos. De todos os modos, qualquer que seja a solução alcançada, levará muitos meses de legislação e compromissos, sempre sob pressão de potenciais manifestantes.

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Uma segunda série de circunstâncias exigirá atenção imediata. Uma crise migratória no extremo norte do país, região com forte presença de trabalhadores indocumentados de toda a América Latina, semeou uma reação anti-imigrante tóxica que levou a bloqueios de caminhoneiros. Se repetidas, essas ações poderiam paralisar áreas significativas da economia e colocar a própria postura de Boric de acolher seus irmãos e irmãs latino-americanos à prova.

No sul do país, as exigências de grupos indígenas há muito negligenciados geraram um terreno fértil para a violência. O novo presidente está determinado a rejeitar a militarização instalada por seu antecessor de direita e abrir um diálogo pacífico com todas as partes, mas os desdobramentos locais podem limitar a sua margem de manobra.

Um dilema semelhante o espera diante do aumento do crime e do narcotráfico, ao mesmo tempo em que tenta retreinar uma força policial recalcitrante que sistematicamente brutaliza jovens e pobres.

O maior desafio do novo governo, no entanto, será assumir as rédeas do governo no exato momento em que a Convenção Constitucional – criada para canalizar as demandas de ativistas militantes – escreve uma nova Magna Carta para substituir a fraudulenta Constituição aprovada pelo ditador Augusto Pinochet em 1980, que impossibilita as mesmas reformas que Boric foi eleito para instituir.

A maioria dos 154 constituintes compartilha as preocupações de Boric sobre o meio ambiente, feminismo, igualdade, participação social e inclusão indígena; apenas 37 são conservadores. No entanto, existe tensão entre um governo que precisa lidar com as complicações cotidianas das pessoas comuns e chegar a acordos com seus oponentes e com uma convenção que sonha com uma terra livre de exploração.

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Boric deverá lutar para convencer os eleitores de aprovar a nova Constituição no referendo de setembro. Por enquanto, essa possibilidade parece remota. Mas se as poderosas forças reacionárias que atacam a Convenção Constitucional surtirem efeito, o novo governo se encontraria atrelado a leis antigas que favorecem o status quo.

Apesar de todas essas armadilhas e dilemas, estou otimista em relação ao futuro.

Esse jovens políticos fazem parte do ressurgimento de uma nova esquerda na América Latina

Há 32 anos, em 11 de março de 1990, fui um convidado oficial da posse do presidente Patricio Aylwin, que substituiu Pinochet após 17 anos de terror. Naquela cerimônia, eu conhecia pessoalmente todos no gabinete de Aylwin, assim como os chefes do Senado e da Câmara dos Deputados.

Tenho o prazer de informar que nunca cruzei com sequer um dos ministros de Boric, mais da metade dos quais são mulheres – embora eu conheça alguns de seus pais e avós. Esta é uma prova retumbante e maravilhosa de uma verdadeira mudança de guarda. O momento parece propício para esse grupo de talentosos millennials – começando com o próprio Boric, carismático, tatuado e sem gravata – para finalmente atacar a velha situação de nossa infeliz pátria.

Esse jovens políticos não apenas chegam ao poder com o apoio de uma sociedade inflamada pronta para se rebelar novamente se suas exigência forem ignoradas, mas fazem parte do ressurgimento de uma nova esquerda na América Latina, com possíveis vitórias no Brasil e na Colômbia este ano que confirmariam essa tendência.

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Apesar da crise global criada pela invasão da Ucrânia, Boric enfrenta um panorama internacional favorável, sem o tipo de hostilidade – sem falar no intervencionismo flagrante – dos EUA que condenou os esforços anteriores de reformas radicais.

Boric representa, além disso, uma corrente progressista bem-vinda na esquerda, opondo-se ao autoritarismo sob qualquer forma: ele criticou a repressão do governo cubano de dissidentes e condenou publicamente o pseudo-sandinista Daniel Ortega. Nisso ele rompe com vários revolucionários mais ortodoxos da América Latina, incluindo alguns de seus próprios aliados comunistas no Chile. É importante entender que a experiência fundacional da geração de Boric foi forjada não na luta contra uma ditadura, mas na oposição aos governos democráticos, exigindo que cumpram a promessa da democracia e atendam às necessidades da maioria de seus cidadãos e não de sua uma elite pequena, poderosa e privilegiada.

O sucesso de seu governo depende, em grande medida, da capacidade de Boric de promover mudanças radicais e justiça ambiental por meios pacíficos. O mundo – especialmente os jovens – precisa de um modelo inspirador que ofereça esperança na democracia em um momento em que somos bombardeados por uma implacável enxurrada de notícias desesperadoras.

Muitos, aqui e no exterior, observam esta nova era na história do Chile.

Gosto de imaginar que, além de muitos de nós que estamos torcendo pelo êxito de Boric, também estejam as gerações passadas, que não conseguiram resolver o enigma do desenvolvimento perene e desigual que ainda nos assombra. Talvez o fantasma de Iriberri, onde quer que esteja, esteja sorrindo ao imaginar que, depois de mais de 200 anos, seus compatriotas tenham acertado; talvez ele possa finalmente descansar em paz porque seu país tem o governo que merece.

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