democraciaAbierta: Analysis

Como a Covid-19 reestruturou o tráfico de drogas no Brasil

Enquanto as apreensões de maconha aumentaram durante a pandemia, a quantidade total de cocaína apreendida diminuiu

Chris Dalby Scott Mistler-Ferguson
23 Agosto 2022, 12.00
As apreensões de maconha aumentaram 107%, enquanto as apreensões de cocaína caíram cerca de 20%
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ZUMA Press, Inc./Alamy Stock Photo

Os mercados de cocaína e maconha do Brasil não ficaram imunes aos efeitos da pandemia de Covid-19, mas um relatório de julho mostra como os traficantes de drogas se adaptaram rapidamente à nova realidade para manter o fluxo de sua mercadoria.

O Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC) detalhou como o tráfico de cocaína e maconha no Brasil foi afetado pelo impacto das medidas de lockdown, desaceleração econômica, respostas do Estado e novas oportunidades criminais.

Más maconha, menos cocaína

Enquanto as apreensões de maconha aumentaram consistentemente ao longo da pandemia, a quantidade total de cocaína apreendida em todo o país diminuiu temporariamente, embora com variações regionais.

De abril de 2020 a março de 2021, as apreensões de maconha aumentaram 107% em relação ao ano anterior, chegando a quase 600 toneladas. Em contraste, as apreensões de cocaína caíram cerca de 20%. Embora as autoridades tenham relatado um número mais significativo de apreensões individuais, a quantidade média de cocaína envolvida despencou, representando uma queda quantitativa geral.

Várias razões explicam o fenômeno. Em primeiro lugar, o relatório do UNODC observou que o fluxo de maconha do Paraguai para o Brasil “aumentou dramaticamente, provavelmente como consequência da redução das ações de erradicação e dificuldades na colaboração transfronteiriça”.

As apreensões de maconha aumentaram 107%, enquanto as apreensões de cocaína caíram cerca de 20%

Um relatório paralelo realizado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) mostrou que, enquanto os traficantes de cocaína usavam os céus para contornar o fechamento de fronteiras, os traficantes de maconha foram para áreas remotas. De acordo com o PNUD, no norte do Brasil, as cidades de Pacaraima e Boa Vista foram pontos de entrada para maconha colombiana, que chegava de barco por hidrovias venezuelanas. Do lado oposto do país, o estado do Rio Grande do Sul viu o surgimento de novos pólos de tráfico em 2020 inexistentes em 2019, à medida que o fluxo de maconha do Paraguai aumentava.

Fechamento de fronteiras aumentou os voos

Os métodos tradicionais de entrada de cocaína no Brasil foram interrompidos no início da pandemia. O UNODC observou que, embora a produção de cocaína tenha sido alta na Bolívia e no Peru em 2019 e 2020, o fechamento de fronteiras terrestres e marítimas — principalmente no Paraguai — fez com que os voos se tornassem a única opção viável.

“Um aumento do fluxo de cocaína nas áreas da fronteira oeste do Brasil logo no começo da pandemia parece ter sido possibilitado por traficantes que recorrem cada vez mais a voos clandestinos para transportar cocaína para o Brasil”, diz o relatório.

No entanto, esses voos parecem ter sido em sua maioria de curta duração, uma vez que os estados onde as apreensões mais aumentaram foram Mato Grosso do Sul e Paraná, que fazem fronteira com o Paraguai.

Essa mudança não parece ter afetado o equilíbrio de poder do tráfico de drogas no Brasil. As principais facções do país estavam melhor posicionadas para alterar suas rotas e métodos de tráfico.

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Por exemplo, o Primeiro Comando da Capital (PCC) pôde se dar ao luxo de substituir o tráfico terrestre de cocaína por voos clandestinos. O promotor do Ministério Público de São Paulo, Lincoln Gakiya, disse ao Valor Econômico que o PCC investiu em "helicópteros e pequenos aviões que podem levar 400 quilos ou 500 quilos de droga". Assim, o fechamento da fronteira Brasil-Paraguai "não causou muito problema para eles", explicou.

Portos menores assumem papéis maiores

O relatório do UNODC destacou como, devido ao maior escrutínio nos principais portos marítimos e à maior demanda por cocaína na Europa, os traficantes brasileiros aumentaram o uso de portos marítimos menores.

“A diversificação [dos portos] já havia sido observada antes da pandemia, mas tornou-se particularmente proeminente durante seu curso, e foi especialmente visível em termos dos países de destino da cocaína traficada dos portos brasileiros”, diz o relatório.

Enquanto o porto de Santos, o maior do país, continuou sendo um um dos pilares do fluxo de cocaína, outras opções no norte e no sul tornaram-se cada vez mais populares. De 2019 a 2022, o porto de Paranaguá, no Paraná, foi bastante usado para enviar cocaína para a Europa por um grupo ligado à máfia calabresa na Itália. Após sua primeira apreensão de cocaína em 2019, o porto de Natal tornou-se um dos pilares para o envio da droga para a Holanda. E a colossal operação de drogas de Sergio Roberto de Carvalho, um dos maiores traficantes de drogas do Brasil, usou qualquer porto disponível no Brasil para transportar dezenas de toneladas de cocaína para a Europa.


Este artigo foi originalmente publicado pelo InsightCrime em inglês e espanhol.

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