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Daniela Silva, a herdeira de uma luta feminina contra a violação da Amazônia

A oposição de décadas ao projeto de Belo Monte continua nas novas gerações, que denunciam a degradação ambiental e social

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Pablo Albarenga Francesc Badia i Dalmases
7 Julho 2022, 12.00
Esquerda: Árvores mortas após a inundação do rio Xingu devido à barragem de Belo Monte. Direita: Daniela Silva posa no local onde ficava a sua casa, em Altamira, antes de ser reassentada
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Pablo Albarenga

Belo Monte é morte!”. Daniela Silva repete ao colocar uma pequena placa com essas palavras no local em que a gigantesca hidrelétrica, construída no rio Xingu, designou para o público admirar e fotografar a monumentalidade da infraestrutura.

Perto do lugar, localizado a cerca de 40 km da cidade de Altamira, grandes letras brancas à beira da estrada fazem um convite: "Fotografe Belo Monte", símbolo claro da arrogância com que a empresa se estabeleceu no médio Xingu. Construída em um dos grandes afluentes do baixo Amazonas, no Pará, a hidrelétrica desorganizou violentamente o ecossistema fluvial e marcou profundamente a vida das populações locais que viviam ao longo do rio.

As consequências da catástrofe socioambiental causada pela construção dessa infraestrutura ainda hoje são difíceis de mensurar. “Belo monstro", é como a batizaram as famílias que foram expulsas de suas casas, suas terras e ilhas pela intervenção que acabou com o habitat de uma vasta área conhecida como “Volta Grande” do Xingu — e com a vida e o futuro das comunidades assentadas em suas margens.

Mais de 14 mil pessoas foram deslocadas de suas terras, incluindo a família de Dani, e reassentadas em pequenas casas recém-construídas, conhecidas como “RUCs” (Reassentamentos Urbanos Coletivos), distantes do rio e do centro da cidade. “Antes, o sentimento de comunidade era muito forte”, diz Dani. “Quando éramos crianças, brincávamos juntos na rua e a comunidade cuidava de nós enquanto nossos pais saíam para trabalhar ou pescar no rio. Pertencíamos ao rio, à floresta. Éramos felizes. Éramos ricos."

Mas a chegada de 45 mil trabalhadores, entre 2011 e 2013, quebrou a coesão da pequena cidade amazônica. O reassentamento das populações que viviam às margens do rio também fragmentou as comunidades, desmembrando sua estrutura. As famílias foram levadas para um descampado sem árvores que fica longe demais do centro para chegar a pé.

Daniela Silva e sua mãe, Ina María Soares, no antigo local de sua casa

Daniela Silva e sua mãe, Ina María Soares, no antigo local de sua casa

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Vista dos RUCs

Vista dos RUCs (Reassentamentos Urbanos Coletivos). Muitas das famílias expulsas de seus territórios às margens ou nas proximidades do Rio Xingu foram realojadas em RUCs

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Vista aérea de algumas das ilhas que foram inundadas após a construção de Belo Monte

Vista aérea de algumas das ilhas que foram inundadas após a construção de Belo Monte

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Vista aérea da Reserva Extrativista Riozinho do Anfrísio, terra das comunidades ribeirinhas da Terra do meio, Altamira, Pará.

Vista aérea da Reserva Extrativista Riozinho do Anfrísio, terra das comunidades ribeirinhas da Terra do Meio, Altamira, Pará.

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Moradores da Reserva Extrativista Riozinho do Anfrísio observam as fotos da exposição do fotógrafo Lilo Clareto

Moradores da Reserva Extrativista Riozinho do Anfrísio observam as fotos da exposição do fotógrafo Lilo Clareto

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Pablo Albarenga

Famílias perderam seus empregos, canoas ficaram sem rio e comunidades ficaram impossibilitadas de pescar. As ilhas foram submersas e as árvores afogadas, deixando uma paisagem de morte e desolação. “Antes eu tinha um rio vivo, hoje tenho um lago morto”, diz Raimundo Berro Grosso, ribeirinho citado pela jornalista Eliane Brum em seu recente livro sobre a Amazônia, “Banzeiro òkòtó”.

“Agora somos pobres. Ser pobre é não poder escolher. Ser pobre é mendigar gasolina para ir ao centro da cidade, é precisar de dinheiro para comprar uma manga no supermercado, é saber que nossos filhos não podem brincar na rua por medo da violência, e que não saibam o nome do rio de sua cidade”, diz Dani, que conta como sua família foi cruelmente atingida pelo infortúnio. Seu pai perdeu o emprego como oleiro, um de seus irmãos foi baleado nas costas pela polícia e outro cometeu suicídio. O terreno abandonado onde ficava sua casa, em um bairro que contava com uma sólida rede de solidariedade, representa a felicidade perdida. Dani se emociona ao contemplar o espaço. “Belo Monte empurrou as pessoas para a miséria. Nos arrancou de nossos lugares e não nos deu condições de recompor nossas vidas. E nunca seremos compensados por isso. Ser pobre, ser miserável, é não ter memória de onde viemos”, lamenta.

Centenas de famílias foram dilaceradas pelas consequências de uma obra concebida durante a ditadura militar, que promoveu a exploração massiva da selva e construiu a rodovia Transamazônica, a agulha de uma enorme seringa utilizada para a extração sistemática de recursos de uma floresta tropical já em ruína.

A hidrelétrica — que foi inaugurada duas vezes, uma pela então presidente Dilma Rousseff em maio de 2016, quando a primeira turbina entrou em operação, e outra pelo atual presidente Jair Bolsonaro, em novembro de 2019, quando a 18ª e última turbina foi ativava — representa o emblema do desenvolvimentismo extrativista que há décadas domina a política econômica brasileira, de esquerda e de direita. Belo Monte é parte de um macro-projeto que previa um sistema de até oito macro-projetos espalhados pelos grandes rios do baixo Amazonas brasileiro. Até hoje, apenas uma está em operação, demonstrando a megalomania de um projeto que nunca alcançou a produção de 11 mil megawatts de "energia limpa e sustentável", como ainda prometem os cartazes espalhados por Altamira.

O projeto já havia gerado grande oposição entre indígenas e ribeirinhos já na década de 1980. Mas 20 anos depois, o projeto foi retomado

O projeto já havia gerado grande oposição entre indígenas e ribeirinhos já na década de 1980. Como consequência, o Banco Mundial retirou seu financiamento. Mas 20 anos depois, o projeto foi retomado. Apesar da oposição ainda muito ativa, o projeto foi em frente, promovido pelos governos do Partido dos Trabalhadores (PT). Grandes referências dos tempos dessa luta permaneceram em Altamira, especialmente mulheres. Mônica Brito, Antônia Melo, Francineide Ferreira e Raimunda Gomes servem de inspiração para a luta de Dani, “que se inventa como guerreira”, nas palavras de Eliane Brum.

A metáfora da selva como corpo de mulher a ser violado é poderosa e corresponde à concepção predatória que muitos brasileiros têm da Amazônia, entre as quais se destacam Bolsonaro e seus seguidores. Como diz Brum, “ser mulher é ser um Xingu violado por Belo Monte. É ser uma árvore queimada quando a fumaça cobre o sol amazônico para esconder o horror do crime.”

A luta de Dani se encaixa nessa poderosa imagem que descreve a catástrofe que vive a bacia amazônica — e que se aproxima rapidamente do ponto sem volta. Se o desmatamento chegar a 20%, o ecossistema passará por uma mudança de ciclo que transformará a floresta tropical atual em uma imensa savana. À luta contra essa ameaça, Dani doa seu corpo, mobilizando-se através de múltiplas iniciativas para enfrentar os latifundiários sem escrúpulos que dirigem seus caminhões arrogantes por Altamira, cidade que já foi amazônica e que Belo Monte transformou na mais violenta de todo o Brasil.

Dani sabe que seu ativismo por Altamira é também pela Amazônia e por todo o planeta, cujo futuro está sendo destruído diariamente. “Lutar pela Amazônia hoje não é uma luta isolada, só daqui. Defender a Amazônia, a floresta, é defender a vida. Não estamos aqui impedindo o desenvolvimento que tanto prometem. Quando eles constroem uma hidrelétrica em um rio sagrado como o Xingu, não é só o Xingu que está morrendo junto com as pessoas que mais próximas. É um efeito dominó: vai caindo, vai caindo e... Puff”.

Daniela Silva posa com Francineide Ferreira dos Santos e Raimunda Gomes da Silva

Daniela Silva posa com duas das mulheres que inspiram sua luta: Francineide Ferreira dos Santos e Raimunda Gomes da Silva. As três foram expulsas de suas terras devido à construção da barragem de Belo Monte

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Raimunda Gomes limpa a terra recuperada onde agora vive e cultiva centenas de cacaueiros

Raimunda Gomes limpa a terra recuperada onde agora vive e cultiva centenas de cacaueiros

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Frutos de cacau crescendo nas terras ocupadas por Raimunda Gomes

Frutos de cacau crescendo nas terras ocupadas por Raimunda Gomes

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Daniela Silva com a filha Maria

Daniela Silva com a filha Maria

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Daniela prepara a filha María para ir à escola

Daniela prepara a filha María para ir à escola

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Barragem de Belo Monte no rio Xingu, no Pará

Barragem de Belo Monte no rio Xingu, no Pará

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Este artigo pertence à série Rainforest Defenders, um projeto do openDemocracy/democracia Aberta com o apoio do Rainforest Journalism Fund do Pulitzer Center. Foi originalmente publicado em espanhol pelo El País.

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