democraciaAbierta: Opinion

O desmantelado do Estado de Direito na América Central

A Europa não deve ficar de braços cruzados enquanto os países que apoiou no passado se tornam focos de crime e corrupção

Marlies Stappers
24 Janeiro 2022, 12.00
Manifestação a favor da Comissão Internacional contra a Impunidade na Guatemala (CICIG) em janeiro de 2019
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A Europa tem uma longa história de apoio ao Estado de Direito em países da América Central.

O continente desempenhou um papel importante nas negociações de paz que ajudaram a acabar com a guerra civil de 36 anos da Guatemala em 1996. A Europa também apoiou o processo de justiça de transição que se seguiu para garantir o estabelecimento de uma comissão da verdade e o julgamento das graves violações de direitos humanos cometidas durante o conflito.

Na última década, a Europa contribuiu para a criação da Comissão Internacional contra a Impunidade na Guatemala (CICIG), um mecanismo bem-sucedido de combate à impunidade e à corrupção e de fortalecimento das investigações judiciais, além de fornecer outros importantes recursos financeiros, técnicos e políticos tanto para o setor da justiça e da sociedade civil.

Mas hoje, este progresso está sendo desfeito, com crescentes repressões contra oponentes políticos e defensores de direitos humanos.

Na Guatemala, onde organizações como a Impunity Watch trabalham desde 2004 para apoiar as reparações da guerra civil, o presidente Alejandro Giammattei e sua coalizão "Vamos por uma Guatemala Diferente" (apelidado de "pacto da corrupção") vêm removendo operadores de justiça independentes, incluindo ex-promotores, juízes do Tribunal Constitucional e promotores anticorrupção.

Os investigadores demitidos, incluindo a ex-promotora Claudia Paz y Paz Bailey, a juíza do Tribunal Constitucional Gloria Porras, a ex-promotora Thelma Aldana e Juan Francisco Sandoval (para citar alguns) foram forçados a fugir do país.

Este mês, a juíza Erika Aifán, ícone da luta contra a corrupção na Guatemala, enfrentou novas ameaças de revogação de sua imunidade, o que poderia deixá-la vulnerável a perseguição e criar um precedente para a perseguição de outros juízes independentes.

Sem um judiciário independente para defendê-lo, o povo guatemalteco está exposto a abusos

Essas exonerações e ameaças visam proteger políticos de alto escalão, militares envolvidos em violações de direitos humanos durante a guerra e elites econômicas ligadas ao crime e à corrupção. A promotora Consuelo Porras tem sido uma peça-chave nesse esquema, tendo acusando falsamente os operadores de justiça de "abusos" e obstruindo investigações de corrupção.

Sem um judiciário independente para defendê-lo, o povo guatemalteco está exposto a abusos.

Muitos dos vizinhos da Guatemala seguem um caminho semelhante. Da prisão de líderes da oposição antes da eleição presidencial da Nicarágua em novembro, à infiltração de traficantes no governo hondurenho e a remoção de juízes em El Salvador para permitir que o presidente concorra a um segundo mandato, os políticos estão espalhando uma cultura de impunidade, corrupção e violência.

Os efeitos dessa situação estão sendo sentidos na Europa, que está se tornando um mercado crescente para o tráfico de drogas da América Central. A cada semana, milhões de euros de cocaína chegam aos portos de Antuérpia e Roterdã em trânsito por países como Honduras e Guatemala.

O aumento da corrupção e a intimidação implacável dos ativistas da justiça na América Central dariam ao crime organizado ainda mais audácia para agir com impunidade e exportar violência e instabilidade para as costas da Europa.

E, no entanto, com o interesse político da UE e seus estados membros na América Central diminuindo, a Europa permanece em grande parte em silêncio diante da situação. Apesar de seu apoio histórico, a Europa agora parece preferir a "diplomacia silenciosa".

Ainda assim, a Europa pode – e deve – apoiar o Estado de direito na América Central e proteger os direitos humanos.

Em primeiro lugar, pode apoiar operadores de justiça independentes e estratégias para fortalecer a justiça e o estado de direito. Isso inclui aumentar o apoio político e financeiro às organizações da sociedade civil que trabalham para monitorar e combater a corrupção e a impunidade, e apoiar instituições independentes como a Ouvidoria de Direitos Humanos da Guatemala. Também inclui o envio de missões internacionais de observação para evitar fraudes e intimidações durante eleições importantes, como a próxima eleição do procurador-geral dos Direitos Humanos e as eleições gerais de 2023 na Guatemala.

Em segundo lugar, a Europa pode oferecer proteção a operadores de justiça independentes que enfrentam ameaças. Na Guatemala, isso inclui juízes dos tribunais de alto risco e promotores da Promotoria Especial contra a Impunidade (FECI), bem como a Promotoria Especial de Direitos Humanos (onde estão sendo tratados casos de guerra civil).

Essa proteção exige um apoio visível e ousado a todos os atores que estão na linha de frente da luta contra a impunidade e que exigem condições que garantam a segurança em seu próprio país, para que não sejam obrigados a fugir.

Uma América Central democrática e justa pode revelar-se um ator crucial em um cenário geopolítico em rápida mudança

E, em terceiro lugar, a Europa pode seguir o exemplo dos EUA e impor sanções a indivíduos centro-americanos ligados a crimes graves e corrupção, assim como pôr fim à cooperação com instituições corruptas, tais como o Ministério Público da Guatemala.

Uma resposta mais bem articulada e coordenada dentro da UE também deve ser combinada em nível internacional, entre a UE, os EUA e a ONU.

Não é tarde demais para agir e proteger o Estado de Direito na América Central. A Europa não deve ficar de braços cruzados enquanto os países que apoiou no passado se tornam focos de crime e corrupção, como aconteceu no caso do Afeganistão.

Esse apoio servirá apenas aos interesses de longo prazo da Europa. Uma América Central democrática e justa pode revelar-se um ator crucial na defesa dos direitos humanos e do Estado de direito em um cenário geopolítico em rápida mudança, com a China e a Rússia ganhando influência ao fechar acordos econômicos, diplomáticos e militares na região.

Como disse recentemente a ex-procuradora Thelma Aldana a um grupo de políticos europeus: "O enfraquecimento da luta contra a impunidade na América Central está se tornando contagioso. Se não fizermos nada, o progresso será desfeito, os processos de paz serão desmantelados e toda a região será perdida".

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