democraciaAbierta: Opinion

A iniciativa de proteger 30% da Terra é uma grande mentira verde

Estamos diante de uma manipulação da opinião pública orquestrada por países ricos que querem nos enganar com falsas soluções

Juan Pablo Gutierrez
27 Julho 2021, 12.00
Una niña Nukak Maku con un collar de dientes de mono. Los Nukak son uno de los 65 pueblos indígenas que afrontan su desaparición física y cultural en Colombia.
|
Foto: ©Juan Pablo Gutierrez

A comunidade científica não deixa de nos alertar para a emergência planetária que vivemos devido às mudanças climáticas e para as consequências iminentes da ausência de soluções estruturais para seu combate. Da mesma forma, ativistas, meios de comunicação, lideranças políticas e cidadãos de todo o mundo têm se mobilizado para alertar sobre a seriedade deste momento.

A única casa que temos, o nosso planeta Terra, está aquecendo devido ao modelo de sociedade industrial imposto ao mundo pela Europa com a chegada do mundo moderno. Ciente do problema, a maioria das pessoas se sente impotente diante da magnitude da ameaça e não sabe se os poucos esforços à sua disposição serão suficientes para poder combatê-lo. Hoje o mundo inteiro é protagonista e espectador de sua própria hecatombe.

Para combater o aquecimento global e acelerar a proteção do meio ambiente, mais de 50 representantes de países da Organização das Nações Unidas lançaram a Coalizão de Alta Ambição para a Natureza através da qual se comprometeram a classificar 30% do nosso planeta como zona de proteção. De acordo com o presidente francês Emmanuel Macron, “a pressão sobre a natureza exercida pelas atividades humanas aumenta as desigualdades e ameaça nossa saúde e segurança”. Para eles, a solução para o problema do aquecimento global consiste em converter 30% do nosso planeta em áreas protegidas.

O projeto de proteger 30% do planeta para enfrentar o aquecimento global é uma manobra de distração

Olhando por cima, pode parecer que estamos diante da mudança que há muito esperamos e que nossos líderes finalmente se deram conta da gravidade do problema. No entanto, se colocarmos a emoção de lado e confiarmos na nossa razão, percebemos que a iniciativa não passa de mais um estratagema dos países desenvolvidos para lavar suas mãos de suas verdadeiras responsabilidades e nos vender um remédio que nada tem a ver com a doença. Como mostra a Survival International, o projeto de proteger 30% do planeta para enfrentar o aquecimento global é uma manobra de distração para enganar o mundo, representando a grande mentira verde da atualidade.

Deter o aquecimento global requer concentração exclusiva no combate às causas. Não esqueçamos que, para além da crise climática, tudo o que vivemos é um reflexo da crise do nosso sistema político fundado em um sistema econômico que depende do consumo desenfreado de coisas inúteis, da acumulação excessiva e da predação e maus tratos da nossa mãe Terra.

Portanto, se realmente tivéssemos vontade de combater as mudanças climáticas, o mínimo que nossos líderes deveriam ter feito no âmbito da Coalizão de Altas Ambições pela Natureza deveria ter sido reconsiderar novas alternativas a esse sistema político e econômico, que hoje mais do que nunca ameaçam nossa subsistência e ao mesmo tempo se revelam como um dos maiores fracassos da história da humanidade.

Da mesma forma, não podemos esquecer que as terras que nossos governantes aspiram "proteger" com a medida dos 30%, extremamente ricas em biodiversidade, são territórios protegidos pelos povos indígenas que nelas habitam há milhares de anos. Se esses povos não vivessem nessas terras, muito provavelmente já teriam sido saqueadas e exploradas pelo mundo "moderno e civilizado".

As terras habitadas por indígenas abrigam 80% da biodiversidade que resta no planeta

As terras habitadas por indígenas abrigam 80% da biodiversidade que resta no planeta, não porque esses povos tiveram a sorte de ter terras mais ricas, mas porque, ao contrário da sociedade 'moderna e civilizada', souberam protegê-las e conservá-las. Em um mundo atolado em uma crise climática sem precedentes na história moderna, a humanidade ainda pode viver neste planeta graças à existência desses povos indígenas que continuam a proteger nossa biodiversidade.

Assim, se os governos do mundo querem realmente assumir um papel de liderança na proteção do planeta e não em destruí-lo, devem concentrar seus esforços no ataque aos verdadeiros motivos que o estão causando. Do contrário, medidas como a de proteger 30% do planeta serão inúteis e permanecerão como estratégias para desviar nossa atenção e poder continuar poluindo impunemente.

Em seu famoso livro Propaganda, de 1928, o sobrinho de Sigmund Freud e pai da propaganda moderna, Edward Bernays, explicou como ligar as emoções das pessoas a qualquer teoria pode fazê-las aceitar coisas inúteis ou aderir a ideias totalmente desnecessárias. Suas teorias em torno da "arte da manipulação" conseguiram, na época, desviar a atenção do mundo do problema do câncer de pulmão ligado ao cigarro, direcionando-a para a poluição atmosférica. Até conseguiu desviar a atenção mundial da morte de milhões de abelhas no mundo ligada ao uso de agrotóxicos, direcionando-a para um parasita que as abelhas sempre carregaram.

O que vivemos atualmente com a iniciativa de proteger 30% do mundo é exatamente o mesmo. Estamos diante de um cenário de propaganda e manipulação da opinião pública orquestrada por países, que, aproveitando o mal-estar global e a preocupação com o aquecimento do nosso planeta, querem novamente nos enganar com soluções que nada têm a ver com o problema em questão.

Unete a nuestro boletín ¿Qué pasa con la democracia, la participación y derechos humanos en Latinoamérica? Entérate a través de nuestro boletín semanal. Suscríbeme al boletín.

Comentários

Aceitamos comentários, por favor consulte ás orientações para comentários de openDemocracy
Audio available Bookmark Check Language Close Comments Download Facebook Link Email Newsletter Newsletter Play Print Share Twitter Youtube Search Instagram WhatsApp yourData