democraciaAbierta: Opinion

O aumento do custo de vida levará a uma revolta popular em massa?

Por quanto tempo os bilionários continuarão acumulando riqueza enquanto os mais vulneráveis lutam por comida?

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Paul Rogers
12 Julho 2022, 12.00
Os bilionários amantes do espaço
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Ilustração por openDemocracy via Britta Pedersen/dpa-Zentralbild/Alamy Stock Photo e Geopix/Alamy Stock Photo

Embora faça tempo que esteja descaradamente óbvio que o modelo econômico global não está funcionando para todos, permitimos que a taxa de acumulação de riqueza por uma pequena minoria chegasse a níveis obscenos.

Com a situação piorando pelo impacto econômico da Guerra da Ucrânia – que veio além dos efeitos da pandemia de Covid-19 – poderíamos estar caminhando para revoltas em massa desencadeadas por uma necessidade desesperada de mudança?

A guerra está causando escassez de alimentos ao redor do mundo, afetando mais criticamente os mais pobres. Ainda não conhecemos seu impacto total, mas o número de pessoas sofrendo de insegurança alimentar severa já duplicou, passando de 135 milhões para 276 milhões, em apenas dois anos, deixando “quase 50 milhões à beira da fome”.

Enquanto isso, os ricos estão ficando mais ricos. Em um período de três meses em 2020, que coincidiu com o início da pandemia, os então 2.189 bilionários do mundo aumentaram sua riqueza em 27,5%, chegando a US$ 10,2 trilhões, segundo o banco privado suíço UBS. Isso representou um aumento de 70% em sua riqueza em apenas três anos. O número de bilionários também aumentou, subindo para 2.668 em dois anos.

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Nesse contexto, surgem duas questões. Por que a lacuna entre ricos e pobres cresceu tanto? E por que não houve uma revolta maior contra o fenômeno?

Esta última é particularmente confusa, dado que nosso sistema global vem exibindo um aumento na riqueza da população geral há 75 anos. Afinal, após o fim da Segunda Guerra Mundial, o Ocidente dedicou esforços consideráveis ​​aos serviços públicos, melhorando seus sistemas de saúde, educação pública, moradia e assistência social básica para os mais marginalizados.

Em um período de três meses em 2020, no início da pandemia, os então 2.189 bilionários do mundo aumentaram sua riqueza em 27,5%

O que aconteceu desde então? A resposta é amplamente reconhecida como “neoliberalismo”, cuja essência dita que a verdadeira base do sucesso econômico depende de uma competição forte e determinada, para a qual um sistema político deve trabalhar.

Com base no trabalho de economistas como Friedrich Hayek e Milton Friedman, a abordagem foi desenvolvida na década de 1950 e moldada por uma rede de mais de 450 think tanks e grupos de pressão de direita nas décadas seguintes.

O neoliberalismo é auxiliado pela tributação destinada a beneficiar os mais bem-sucedidos; o firme controle do trabalho organizado para minimizar a oposição; e a máxima privatização dos transportes, utilidades como energia, água e comunicações, habitação, saúde, educação e até segurança.

Obviamente, esse sistema gera perdedores consideráveis, mas normalmente riqueza suficiente “goteja” para evitar uma oposição séria. É uma linha de pensamento que pode atingir o fervor de uma crença religiosa e certamente é melhor interpretada como uma ideologia.

A transição para o neoliberalismo foi impulsionada pelas enormes convulsões econômicas após o aumentos do preço do petróleo de 1973-74 (mais de 400% em oito meses). A estagflação tornou-se a ordem do dia, resultando na eleição de Margaret Thatcher, no Reino Unido, e de Ronald Reagan, nos Estados Unidos.

Ambos os líderes recém-eleitos estavam convencidos da necessidade de abraçar o novo pensamento. Ao longo da década de 1980, os EUA perseguiram a firme crença da necessidade de acelerar as mudanças tributárias e a desregulamentação financeira, enquanto a Grã-Bretanha procurou controlar os sindicatos e supervisionar a privatização em larga escala de ativos estatais – o mantra de Thatcher era “não há alternativa”.

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Crise energética da China e sanções à Bielorrússia já limitaram fornecimento e elevaram preços de insumos

Outros dois processos globais também contribuíram para acelerar a transição para o neoliberalismo. O primeiro foi o “Consenso de Washington”, introduzido em 1989, que estabeleceu políticas econômicas de livre mercado para “países em desenvolvimento”. O Banco Mundial e o FMI lideraram o caminho para garantir que o Sul Global seguisse o novo modelo.

A segunda foi o colapso do bloco soviético. Quando a Rússia imediatamente adotou o hipercapitalismo, cimentou o valor da abordagem neoliberal e da obsolescência de um sistema planejado centralmente. Até a China estava caminhando em direção ao capitalismo autoritário híbrido.

Mas agora, mais de três décadas depois, o neoliberalismo explica os níveis obscenos de riqueza para poucos, não para muitos. Então, por que teve tão pouca resistência? Em parte devido ao resíduo da experiência da economia pré-neoliberal, que gera uma sensação de que as coisas eram piores antes de nomes como Thatcher e Reagan entrarem em cena. Essa visão persiste, mas está rapidamente perdendo sua força em face da crescente desigualdade.

Uma explicação mais realista está em que grande parte da grande mídia ocidental é controlada por indivíduos, famílias e corporações singularmente ricos. No Reino Unido, a mídia impressa é dominada por apenas três famílias bilionárias, que definem grande parte da agenda de notícias. Esses bilionários têm pouco incentivo para focarem em questões de desigualdades profundas.

Mas isso não exclui respostas radicais. O ISIS e outros movimentos paramilitares islâmicos se beneficiaram enormemente de sua capacidade de recrutar jovens marginalizados com perspectivas de vida muito limitadas, oferecendo uma alternativa às suas profundas frustrações.

As revoltas em diferentes países vistas em 2019 não se transformaram em raiva transnacional, muito menos em violência

Há, é claro, casos atuais de revolta em outros lugares, como no Sri Lanka, que têm causas específicas, invariavelmente em um contexto muito mais amplo. Ainda não vimos nenhum movimento verdadeiramente transnacional, mas vale lembrar a coincidência de muitas revoltas em poucos meses no final de 2019.

Em outubro daquele ano, milhares foram às ruas no Iraque para se rebelar contra os níveis de desemprego e baixos salários, que vieram em meio à corrupção desenfreada em um país rico em combustíveis fósseis. Ao mesmo tempo, o Líbano testemunhou repetidas manifestações de rua contra a desigualdade e a corrupção e o Chile explodiu em protestos em massa, vistos como uma resposta às promessas fracassadas do neoliberalismo e às desigualdades criadas pelas políticas neoliberais. Processos semelhantes se deram em outros países. A França, Equador, Bolívia, Haiti, Albânia, Ucrânia, Sérvia e até a Rússia viram distúrbios civis.

“Na maioria dos casos, existem fatores específicos que transformam o descontentamento e o ressentimento em manifestações muitas vezes seguidas de repressão e violência", uma análise do Oxford Research Group colocou na época. "Alguns podem ter pouco a ver com o aumento da desigualdade e a diminuição das perspectivas de vida, mas para a maioria, isso faz parte do contexto social e político mais amplo.”

Essas revoltas não se transformaram em raiva transnacional, muito menos em violência. Os protestos individuais não foram vistos como parte de um processo global e há poucas indicações de um movimento mundial de revolta. Mas agora, os efeitos econômicos da pandemia e da guerra na Ucrânia, combinados com o crescente impacto do colapso climático, sugerem que é apenas uma questão de tempo. Se for esse o caso, então estamos entrando em tempos incertos.

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