50.50: Feature

Conheça as mexicanas que lutam pela descriminalização da maconha

Feministas dizem que propostas para legalizar o uso recreativo de cannabis caminham de mãos dadas com os direitos das mulheres.

Carli Pierson
12 Maio 2021, 12.00
'Mulheres forjando baseados, forjando lutas', Cidade do México, novembro de 2020
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Foto: Tlali Marquez/Ilustração: Inge Snip

Desde sessões de ‘Twerk and Smoke’ no Zoom a ‘yoganja’ (yoga mais maconha), ativistas feministas no México vêm se unindo à luta para legalizar a maconha.

“A luta para mudar a política de drogas no país será feminista ou não será”, diz Rebeca Soto, uma mulher de 31 anos. Durante o dia, Soto trabalha com uma iniciativa do governo municipal que ajuda usuários de substâncias psicoativas a acessar recursos do governo e da sociedade civil. À noite, a ativista radicada na Cidade do México dirige o Feminismo & Flow, coletivo de cannabis que ajudou a criar.

Do Chile ao México, coletivos feministas da América Latina vêm trabalhando na resposta à epidemia de violência contra mulheres e meninas em toda a região. Agora, os grupos defensores da cannabis estão ganhando espaço dentro do movimento.

O Senado do México deve aprovar a legalização da maconha recreativa, um marco para um país há muito nas estertores de uma guerra às drogas. Em março, a Câmara dos Deputados aprovou um projeto que permitiria aos adultos fumar maconha e solicitar uma licença para cultivar um número limitado de plantas de cannabis em casa.

A legislação também concederia licenças a pequenos agricultores para cultivar e vender maconha. Ativistas como Soto dizem que a nova lei pode mudar o jogo e aumentar as oportunidades de empreendimento, especialmente para mulheres.

Também tem o potencial de diminuir o crime organizado violento, que afeta as mulheres de várias maneiras. A violência praticada por parceiros íntimos aumentou no México nos últimos 20 anos, assim como a violência relacionada ao crime organizado contra os corpos das mulheres, como explica Maria Salguero, fundadora do Mapa Nacional de Femicídios no México.

O tráfico de meninas tem aumentado consistentemente desde 2015, assim como o feminicídio associado à violência criminal. Os corpos das mulheres são usados ​​para enviar mensagens a outros grupos criminosos, indivíduos-alvo e a sociedade em geral, independentemente do envolvimento pessoal das mulheres em atividades criminosas.

O tráfico de drogas também afeta negativamente as mulheres. De acordo com um relatório da ONG EquisJusticia, “os crimes relacionados a drogas são o quinto motivo mais comum para o encarceramento de indígenas no México” e quase metade das mulheres encarceradas estão na prisão por crimes relacionados a drogas. Mulheres que estão na prisão por uso ou transporte de substâncias como cannabis ou heroína frequentemente são mães solteiras, com baixos níveis de educação e acesso mínimo a oportunidades econômicas.

Má reputação

Soto e eu nos conhecemos no ano passado via Skype, quando uma amiga me convidou para uma sessão virtual de 'Twerk and Smoke' organizada pelo coletivo de Soto. Desde então, falamos frequentemente sobre a interseção do feminismo, cannabis e a epidemia de violência contra as mulheres no México.

Ela me disse que existem muitos coletivos feministas como o dela. “Antes de ser usuária de maconha, eu era feminista e percebi que havia uma conexão entre as duas coisas”, disse Soto.

Planta de maconha
Planta de maconha em Xalapa, Veracruz | Carli Pierson

Curandeiras e fitoterapeutas no México usam maconha em sua prática desde que ela foi introduzida nas Américas pelos espanhóis no século 15. Elas o faziam discretamente, porque a cannabis rapidamente chamou a atenção da Inquisição Espanhola por suas propriedades alucinógenas.

O estigma em torno do uso da planta cresceu ao longo dos séculos. Após a Revolução Mexicana (1910–20), a imprensa tanto no México como nos Estados Unidos começou a retratar o uso da maconha em termos racistas, classistas e sexistas. Nos filmes mexicanos e americanos, a maconha era associada à prostituição e à insanidade. A imprensa dos Estados Unidos culpou diretamente seu vizinho do sul, descrevendo a droga como "erva assassina mexicana".

O estigma permanece até hoje, especialmente para as mulheres. Na cultura machista do México, mulheres que usam drogas e têm outras "malas costumbres" (maus hábitos) são tidas como "más". Essa noção desempenhou um papel importante na normalização da violência sexual e de gênero no país. De acordo com Soto, mulheres presas por porte de maconha enfrentam agressão sexual ou estupro. Algumas até desaparecem.

A nova lei e as mulheres

Em uma casa térrea comum em Xalapa, capital do estado mexicano de Veracruz, conheci a Dra. Paulina Mejía Correa. Ela dirige o Divinorum Boutique Herbal, uma empresa de cannabis terapêutica. O uso medicinal de maconha já é legal no México, mas continua sendo amplamente tabu. Correa, que tem doutorado em ecologia tropical, falou comigo na sala que ela usa para oferecer massagens e outras terapias com maconha.

Correa ao lado de sua planta
Dra. Paulina Mejía Correa cuidando de uma planta de maconha em sua clínica em Xalapa, Veracruz | Carli Pierson

A maconha é usada há centenas de anos no parto, para dores menstruais e para o controle da depressão pós-parto, ela me disse. A cannabis “é uma planta de uso ancestral, especialmente para as mulheres”. Correa explicou que as mulheres têm mais receptores de canabinoides, que cientistas dizem desempenhar papéis importantes no corpo e no sistema nervoso, incluindo na regulação do humor, apetite, dor e funções imunológicas. É por isso que a cannabis tem um efeito diferente nas mulheres em comparação com os homens.

As ativistas dizem que a nova lei para legalizar a maconha recreativa ajudará a tirar dos cartéis de drogas o controle da produção e do fornecimento de maconha e abrirá espaço para mulheres empresárias como Correa.

Segundo Soto, a nova lei significaria mais oportunidades para mulheres em uma indústria amplamente controlada por homens. Isso poderia ajudar mulheres agricultoras em “comunidades remotas e indígenas que estão entre as mais afetadas pela guerra contra as drogas”, acrescenta.

O projeto de lei tenta solucionar algumas das desigualdades do sistema. Diz que, nos primeiros cinco anos, pelo menos 40% das novas licenças de cultivo de cannabis serão reservadas para povos indígenas, ejidos (terras cultivadas de maneira comunitária com apoio do estado) e outras comunidades agrárias marginalizadas. No entanto, não há menção de disposição específica para mulheres.

A nova lei significaria mais oportunidades para mulheres em uma indústria amplamente controlada por homens

Zara Snapp, cofundadora do Instituto RIA da Cidade do México, que defende a justiça social, diz que a nova legislação é um passo na direção certa.

No entanto, as três mulheres que entrevistei apontaram para ambiguidades na nova lei que poderiam afetar mulheres adversamente. Por exemplo, o texto proíbe o uso de maconha na frente de menores, o que afeta diretamente mulheres uma vez que são elas geralmente as encarregadas de cuidar dos filhos.

Tanto Soto quanto Snapp estão trabalhando para reformar a lei proposta a partir de uma perspectiva de gênero. Querem que a legislação decriminalize a posse e que abandone a proibição de consumir na presença de menores.

Elas reiteram a importância de soltar mulheres presas por infrações de menor potencial ofensivo relacionados à maconha, bem como dar-lhes acesso à reabilitação e oportunidades econômicas. Isso poderia ser no setor da cannabis recentemente legalizado, uma vez que as mulheres frequentemente estão envolvidas no cultivo, embalo e transporte da maconha.

Snapp também faz parte do conselho da ReverdeSer, uma ONG que trabalha por uma política pública socialmente progressista sobre as drogas. Ela aponta para uma proposta que reservaria 80% das licenças de cultivo para o setor social (comunais, ejidos ou pequenas propriedades e sociedades cooperativas) e 50% de todas as licenças para mulheres. Da mesma forma, “50% dos empregados na indústria devem ser mulheres”.

Esta proposta é apoiada por coletivos feministas como Mujeres Forjando Porros e Forjando Luchas (‘Mulheres Forjando Baseados e Forjando Lutas’), aos quais Soto e Snapp pertencem. Desde empoderar mulheres por meio de pequenos negócios até mantê-las seguras, a legalização da maconha é parte integral da luta feminista, explicou Soto. A legalização “ajudaria [as mulheres] a acessar e usar a planta e a flor sem arriscar sua segurança, liberdade ou saúde, ou a saúde das pessoas de quem cuidam”, afirma.

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