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Morte do 'índio do buraco' em Rondônia marca o fim dos Tanaru

A morte do homem cimenta a extinção de uma etnia, mostrando que a política brasileira não está protegendo os povos isolados

Kátia Brasil
31 Agosto 2022, 12.00

O 'índio do buraco' foi encontrado morto em 23 de agosto

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Funai

O último indígena isolado voluntariamente da Terra Indígena Tanaru, conhecido como o “índio do buraco”, foi encontrado morto na maloca, na terça-feira (23), pelo sertanista Altair José Algayer, coordenador da Frente de Proteção Etnoambiental Guaporé da Fundação Nacional do Índio (Funai), no sul de Rondônia.   

O indigenista Marcelo dos Santos, que trabalhou na proteção do indígena Tanaru, disse que o sertanista Altair José Algayer fazia o monitoramento territorial quando encontrou o corpo do isolado, que aparentava ter 60 anos.

“Ele foi encontrado na rede e coberto de penas de arara. Acreditamos que o corpo, isso é só especulação, não sou legista, estava lá há uns 40 a 50 dias. Ele estava esperando a morte, não tinha sinais de violência. O Altair fazia visitas, quatro ou cinco vezes por ano. Mas é preciso investigar se houve alguma doença ou contaminação”, afirma Marcelo dos Santos.   

A Frente de Proteção Etnoambiental Guaporé, ligada Coordenação-Geral de Índios Isolados e de Recente Contato (CGIIRC), monitorava o indígena Tanaru há cerca de 26 anos. “Ele era o único sobrevivente da sua comunidade, de etnia desconhecida”, disse em nota a Funai, que descartou morte por violência. (Leia mais no final do texto)

A notícia da morte do Tanaru foi divulgada neste sábado (27), às 12h15 (horário de Brasília), pela conselheira da Associação de Defesa Etnoambiental Kanindé, Walelasoetxeige Paiter Bandeira Suruí, a Txai Suruí, em sua página da rede social no Twitter. “Mais um genocídio no Brasil. O ‘índio do buraco’, como era conhecido, símbolo de resistência, pois negou até seus últimos dias o contato com o não-indígena é encontrado morto, paramentado como se soubesse que sua morte estava próxima”, disse.  

A Terra Indígena Tanaru, que tem 8.070 hectares, é classificado como restrição de uso desde 1998. O território fica entre os municípios de Chupinguaia, Corumbiara, Parecis e Pimenteiras do Oeste. Na região conhecida como Cone Sul há muitas fazendas de produção agropecuária.  Por não ser demarcado, o território está sob ameaça de invasões e ataques.

A Associação de Defesa Etnoambiental Kanindé é coordenada pela mãe de Txai Suruí, a ambientalista e indigenista Ivaneide Bandeira, conhecida como Neidinha Suruí. “Essa morte mostra a extinção de um povo em pleno século 21. Mostra que a política indígena não está protegendo os povos isolados. É fundamental que a Funai investigue a morte e como se deu, já que ele foi encontrado morto, usando as vestimentas tradicionais. E que mais uma vez não se faça como estão fazendo com o Ari Uru-Eu-Wau-Wau, culpar a própria vítima de conflitos na terra indígena com as invasões de madeireiros, garimpeiros e grileiros”, disse Neidinha. Ela está neste momento nos Estados Unidos divulgando o filme “Territórios” sobre luta de Ari, assassinado em 2021.   

Os indígenas considerados isolados são os povos que não têm contato com a sociedade nacional, segundo a Funai, possivelmente por resultado de violentos encontros do passado e da contínua invasão e destruição de sua floresta. Na Amazônia brasileira existem, pelo menos, 100 grupos de indígenas isolados, diz a fundação, sendo que a maioria na Terra Indígena Vale do Javari, onde foram assassinatos há três meses o indigenista Bruno Pereira e o jornalista Dom Phillips.

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A maloca do 'índio do buraco', em 2005

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Survival International

O indígena Tanaru era chamado do “índio do Buraco” porque ele escavava dentro da maloca, feita de palha. Em entrevista ao programa Globo Amazônia, o sertanista Altair José Algayer disse que acreditava “que o buraco tenha valor místico para o indígena”, e ele se alimentava de “animais como porco-do-mato, jabuti e pássaros, caçados com flecha ou capturados em armadilhas, e também de mel”.   

Em nota divulgada neste sábado (27), a Funai disse, sem citar o nome do sertanista José Algayer, que descartou sinais de violência na morte do indígena Tanaru. “Não havia vestígios da presença de pessoas no local, tampouco foram avistadas marcações na mata durante o percurso. Também não havia sinais de violência ou luta. Os pertences, utensílios e objetos utilizados costumeiramente pelo indígena permaneciam em seus devidos lugares. No interior da palhoça havia dois locais de fogo próximos da sua rede. Seguindo a numeração da lista de habitações do Índio Tanaru registradas pela Funai ao longo de 26 anos, essa palhoça é a de número 53, seguindo o mesmo padrão arquitetônico das demais, com uma única porta de entrada/saída e sempre com um buraco no interior da casa”.  

Em outro trecho da nota, a Funai diz que a Polícia Federal realizou perícia no corpo do indígena com apoio de legistas do Instituto Nacional de Criminalística (INC) e peritos criminais de Rondônia.  “A Funai lamenta profundamente a perda do indígena e informa ainda que, ao que tudo indica, a morte se deu por causas naturais, o que será confirmado por laudo de médico legista da Polícia Federa”, concluiu o órgão.

À reportagem, a PF de Vilhena (RO) informou que a equipe que está periciando o corpo do indígena Tanaru é a mesma que trabalhou nos laudos das vítimas dos desastres ambientais de Brumadinho e Mariana, em Minas Gerais, e do indigenista Bruno Pereira e do jornalista Dom Phillips. Segundo a polícia, serão realizados exames toxicológico e de antropologia forense – esse pode trazer respostas sobre a etnia do “índio do buraco”.  

Neidinha Suruí disse à reportagem que trabalhou no levantamento da ocupação da Terra Indígena Tanaru, entre os anos 80 e 90, e destacou o legado do indígena que vivia isolado. “É fundamental que o indígena isolado Tanaru seja enterrado em seu território, não se pode negar isso. É fundamental se fazer uma homenagem ao indígena neste momento. Me sinto extremamente triste com o que aconteceu, especialmente por ter atuado no levantamento da ocupação. Espero mesmo que se faça a proteção dos indígenas isolados no Brasil, pois assim como ele, outros estão em perigo”, disse a coordenadora da Associação Kanindé.

*Josi Gonçalves colaborou de Rondônia


Este artigo foi originalmente publicado na Amazônia Real.

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