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O mundo queima enquanto os ricos lucram. Não precisa ser assim

Enquanto os efeitos da crise climática são vistos nas recentes ondas de calor e secas, empresas petrolíferas prosperam

Adam Ramsay
Adam Ramsay
26 Julho 2022, 12.00
Bombeiros atendem incêndio florestal em Ourém, no distrito de Santarém, em Portugal, em 12 de julho de 2022
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Reuters/Rodrigo Antunes

A última vez que os preços subiram tão rápido foi há 41 anos. A última vez que o Reino Unido teve essa rotatividade de primeiros-ministros foi em meados da década de 1970. A última vez que duas potências europeias estiveram em guerra aberta foi em 1945. A última vez que o Hemisfério Norte esteve tão quente foi provavelmente há 125 mil anos.

No entanto, os mercados acionários nunca estiveram tão aquecidos, os lucros corporativos estão nas nuvens, o número de bilionários disparou. E as companhias de petróleo estão mais ricas do que nunca.

Se levássemos a sério as mudanças climáticas, a indústria do petróleo já teria falido. Essas empresas emprestam bilhões com base no valor futuro das reservas que ainda não perfuraram, mesmo diante de uma atmosfera que precisa que carbono deixe de queimar para ontem.

Para que nossas sociedades modernas continuem a existir de forma reconhecível, os ativos das companhias petrolíferas não podem valer nada. E mesmo que nossas sociedades não sobrevivam, esses ativos continuam sem valer nada.

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No entanto, os gigantes dos combustíveis fósseis estão de vento em popa. Este mês, a Shell anunciou que pretende aumentar o valor dos ativos de petróleo e gás que havia baixado anteriormente, fazendo com que os preços de suas ações saltassem de alegria.

A Arábia Saudita, que luta por investimentos desde que supostamente pendurou um bando de empresários pelos pés e os espancou até que revelassem seus dados bancários, vem sendo recebida de braços abertos após esse período de exílio.

Em maio, a exportadora de petróleo Saudi Aramco ultrapassou a Apple como a empresa mais valiosa do mundo, transformando-se na mais valiosa da história da humanidade. Semana semana, apenas alguns meses depois de fingir levar a sério a emergência climática na COP26, Joe Biden foi cumprimentar o narco-em-chefe saudita e implorar para que continue bombeando mais morte nas veias do capitalismo.

Diante da crise da política, as pessoas estão percebendo cada vez mais que não têm outra opção senão lutar pelo futuro

Enquanto isso, as temperaturas em regiões da Europa que ultrapassam níveis que a homeostase humana pode lidar ilustram a colisão entre a crise climática e a sanitária.

Sufocado por uma dúzia de anos de austeridade conservadora e a resposta incompetente do governo à Covid-19, o sistema público de saúde da Inglaterra, o NHS, apresenta listas de espera recordes. As unidades de pronto-socorro estão “à beira do colapso”, com ambulâncias fazendo fila do lado de fora dos hospitais, incapazes de entregar seus pacientes.

E com a oferta mundial de alimentos já abalada pela guerra na Ucrânia, a onda de calor também significa o agravamento da fome global.

A isso se soma as previsões de que os agricultores italianos devem perder um terço das culturas de verão, como arroz e milho — sem contar as perdas em Sardenha, cujos campos foram assolados por gafanhotos. Na China, as altas temperaturas estão secando o solo, devastando sua agricultura. A África Oriental está passando por uma das estações chuvosas mais secas em 40 anos, que, combinada com o fato de que 40% do trigo consumido na África vem da Rússia ou da Ucrânia, deixa dezenas de milhões de pessoas com fome.

Os bilionários do setor alimentício e agrícola, por outro lado, aumentaram sua riqueza coletiva em 45% nos últimos dois anos, enquanto a gigante global de alimentos Cargill registrou um aumento de 63% em seus lucros no ano passado, seu melhor desempenho em quase 160 anos de história.

À medida que o mundo sai do modo pandemia, entra em uma nova fase do capitalismo global.

Para grandes empresas e bilionários, o estado de crise permanente apresenta uma oportunidade perfeita para o capitalismo de desastre, que os permite usar a a sensação avassaladora de que tudo está pegando fogo para saquear. Em outras palavras, para aumentar os preços enquanto mantém os salários baixos e extrair, extrair, extrair.

Mas este não é um futuro inevitável. O leve eco das promessas de reconstruir um mundo pós-pandêmico melhor pode ter desaparecido. Mas, diante da crise da política, as pessoas estão percebendo cada vez mais que não têm outra opção senão lutar por esse futuro.

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