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Agricultura intensiva e turismo ameaçam cacto psicodélico sagrado do México

Boom na agroindústria e interesse de consumidores estrangeiros podem acabar com o peiote e ritos de povos indígenas

Mattha Busby Jasmine Virdi
18 Agosto 2022, 12.00
A presença de peiote diminuiu 40% nas áreas frequentadas por turistas nos últimos cinco anos e 100% nas áreas em que a agroindústria construiu estufas
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Camille Pelloux. Todos os direitos reservados

Quando os conquistadores espanhóis chegaram ao México há meio milênio, eles procuraram convencer os povos nativos de que o consumo de peiote, um cacto discreto que contém a droga psicodélica mescalina, equivalia à adoração ao diabo.

Mas as medidas draconianas impostas pelos espanhóis não impediram o consumo da droga alucinógena — apenas forçaram maior sigilo ao redor das cerimônias. O peiote permanece central para as tradições dos Wixárika — mais comumente conhecidos como Huichol — nativos da cordilheira ocidental de Sierra Madre, no noroeste do México. A planta está tecida em sua história de origem, na qual é vista como um portal que permite a conexão com ancestrais, divindades e o mundo natural. Esses ritos sagrados podem datar de milhares de anos.

Hoje, no entanto, a escassez ronda o cacto em forma de botão e sem espinhos, que ocasionalmente produz flores rosa, mas que de forma geral fica camuflado sob os arbustos do deserto. Isso se deve tanto à demanda crescente por peiote quanto ao desmatamento causado pela expansão do setor agrícola no estado central de San Luis Potosí (e além).

É aqui que fica Wirikuta — parte do deserto onde cresce o peiote e onde os Wixárika acreditam que o mundo foi criado. Os Wixárika realizam peregrinações regulares a este local sagrado para acessar a planta medicinal.

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Onde antes cresciam vastas faixas de vegetação densa, incluindo peiote, agora existem estufas colossais, retângulos gigantes de terras cultivadas e milhões de galinhas e porcos engaiolados em unidades industriais. Especialistas dizem que é mais difícil encontrar peiote endêmico nos dias de hoje.

“O peiote já estava ameaçado pela superexploração e tráfico ilegal, mas nos últimos dez anos, centenas de hectares desse ecossistema desértico único foram perdidos — devido à expansão de estufas agrícolas industriais e monoculturas para a produção de milhares de toneladas de tomate e pimentas para o mercado americano”, afirma o consultor de agroecologia Gerardo Ruiz Smith, que realizou pesquisas independentes na área.

Onde antes nascia peiote, agora existem estufas colossais e milhões de galinhas e porcos engaiolados

A mescalina tornou-se amplamente conhecida no Ocidente após a publicação de “Portas da Percepção”, de Aldous Huxley, em 1954, e mais tarde de “Medo e Delírio em Las Vegas”, de Hunter S. Thompson.

Agora, à medida que os estigmas em torno dos psicodélicos continuam a desaparecer em meio a evidências crescentes de suas propriedades terapêuticas, o peiote tem feito novas incursões na cultura popular, ilustrado pela crescente popularidade da arte Wixárika, o álbum recente de Patti Smith intitulado “The Peyote Dance” e o tributo do presidente do Conselho Mundial de Boxe ao consumo de peiote.

Reunião cerimonial

Reunião cerimonial em Wirikuta, parte de um evento chamado 'Renovação do Mundo', em maio de 2022

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Ivan Sawyer García. Todos os direitos reservados

De todos os psicodélicos naturais (incluindo ayahuasca, iboga e cogumelos mágicos), o peiote — ou híkuri, como os Wixárika o chamam — parece enfrentar as mais agudas crises ecológicas e culturais. Projetos megaagrícolas que parecem ter pouca preocupação com o ecossistema ou a proteção de locais sagrados de Wixárika estão agravando os problemas causados ​​pela expansão da indústria do turismo de peiote em todo o México.

Expansão da agroindústria

Novas fazendas de produção de frango, porco e hortaliças que se estendem por centenas de hectares na área do Altiplano-Wirikuta – com licenças concedidas em um estado cuja fortuna de seu governador e sua família vem da indústria avícola – contribuem para a grave pressão ecológica. Fotos de satélite ilustram a escala das novas operações, mostrando que a vegetação nativa foi desenraizada para dar lugar ao monocultivo. E o grande capital já está de olho em novas invasões.

Estufas de tomates vistas de cima

Imagens de satélite mostram a expansão das estufas de tomate em Wirikuta entre 2012 e 2021

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Gerardo Ruiz Smith. Todos os direitos reservados

O jornal mexicano El Milenio noticiou no ano passado um protesto em frente ao produtor de carne suína e avícola Proan, acusado por autoridades locais e religiosas de despejar lixo e contaminar o território sagrado de Wirikuta (um representante do Proan prometeu propor uma solução dentro de duas semanas). Essa carne é frequentemente destinada aos mercados locais, mas pimentas, tomates e outros produtos são exportados principalmente para os EUA.

Os moradores locais acolhem amplamente o aumento das oportunidades de emprego — embora hajam problemas. Em outubro, os EUA suspenderam as importações de tomates da Agropecuários Tom por suposta utilização de trabalho forçado (a empresa nega as acusações).

A presença de peiote diminuiu 40% nas áreas frequentadas por turistas e peregrinos Wixárika nos últimos cinco anos e 100% nas áreas em que a agroindústria construiu estufas, relata Pedro Nájera, ecologista e engenheiro agroecologista da Universidade Autônoma de San Luis Potosí. Nájera pertence ao Hablemos de Híkuri (Vamos falar de Híkuri), uma iniciativa indígena que conscientiza sobre as ameaças ao peiote e propõe planos de conservação.

São necessários mais de 4 milhões de metros cúbicos de água por ano para irrigar as estufas de tomate que já funcionam na área supostamente protegida de Wirikuta. Muitas dessas instalações foram construídas em áreas onde o peiote é endêmico. A perfuração do já superexplorado aquífero para irrigar plantas não-nativas, em uma área que sofre secas regulares e severas, também ameaça os meios de subsistência dos agricultores locais, obrigando-os a se afastarem de suas terras.

A crescente demanda por peiote resultou em métodos indiscriminados de colheita

No passado, grande parte da terra em Wirikuta era propriedade comunal de ejidatarios (acionistas de terras comunitárias). No entanto, nos últimos anos, o governo mexicano criou leis que permitem a privatização dessas terras comunais.

“Quando a terra é privatizada, retira-se dos ejidatarios o direito de decidir o destino de seus territórios”, diz Carlos Raul Carrillo Lopez, membro da comunidade Wixárika. “A terra não tem preço porque permite a vida para sempre, mas ao privatizá-la as pessoas ficam enfraquecidas, uma vez que essas terras pode ser alugadas ou vendidas.”

Pilhagem das 'plantas dos deuses'

A crescente demanda por peiote resultou em métodos indiscriminados de colheita. Pesquisadores recentemente documentaram uma cratera onde antes havia um leito de peiote de 125 anos, indicando tráfico em grande escala de peiote em pó para o exterior.

Cortar a coroa da planta muito perto da raiz limita sua capacidade reprodutiva, diz o ecologista Nájera. “É equivalente à castração”, lamenta. Peioteros treinados cortam apenas a coroa: “Quando você faz isso, a planta volta a crescer — às vezes com mais de uma cabeça”. Ele acrescenta: “As plantas grandes estão sendo colhidas muito mais do que as menores, então a população está diminuindo ainda mais”.

Leito de peiote saqueado

Leito de peiote saqueado

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Pedro Nájera. Todos os direitos reservados

A culpa, segundo ele, são das pessoas destreinadas que colhem sem a supervisão dos mara’akames (xamãs Wixárika): “As pessoas vêm aqui e saqueiam as plantas dos deuses”. De acordo com a lei mexicana, apenas alguns grupos indígenas têm permissão para colher peiote, mas a lei não é rotineiramente aplicada em Wirikuta.

Nájera diz que parte das terras desmatadas para uso agrícola foi abandonada devido às duras condições climáticas, mas o peiote não retornou — mesmo depois de décadas. “É de partir o coração. Uma das principais ameaças ao peiote é a mudança no uso da terra. O cacto não volta nesses lugares.”

Uso religioso

É difícil avaliar quanto peiote é colhido a cada ano (ou quanto nasce), mas acredita-se que o maior comprador seja a Igreja Nativa Americana. A instituição compra centenas de milhares de “botões” de peiote por ano de peioteros licenciados nos EUA, além de estar isenta da legislação sobre drogas devido ao uso religioso do cacto psicoativo.

Aqui, o dilema enfrentado pelos amantes do peiote se torna cada vez mais agudo: seu uso é central em cerimônias religiosas dentro e fora do México, mas, em meio a preocupações de conservação no Texas e no México, pode a natureza atender à demanda sem cultivo organizado?

Raramente a comunidade Wixárika teve algum poder de decisão, apesar do significado cultural da terra para sua própria existência, que depende do consumo sacramental do peiote.

Nas últimas décadas, o estabelecimento de estradas e a construção de cercas por fazendeiros complicou a peregrinação anual e ancestral da comunidade Wixárika por estados próximos ao deserto. Alguns fazendeiros se opõem à colheita do peiote em suas terras, mas os Wixárika reivindicam o direito histórico de fazê-lo.

Em maio, centenas deles marcharam 900 km até a Cidade do México para exigir a restituição de suas terras. “Nossos pés estão cansados, mas estamos mais cansados ​​de esperar pela justiça, pela devolução de nossas terras. Isso sim é exaustivo”, disse Ubaldo Valdez Castañeda.

Conservação e regeneração

A comunidade Wixárika, os principais guardiões do peiote, estão diante de uma combinação perfeita de problemas. O primeiro passo para proteger a planta é pedir aos participantes da cerimônia que coletem as sementes do peiote, para que possam ser replantadas no deserto. “As pessoas não percebem que leva 15 anos para crescer”, explica Nájera. Alguns fazem campanha para remover o peiote das medidas de descriminalização das drogas nos EUA e para fazer cumprir a lei mexicana que diz que apenas os Wixárika podem colher peiote.

Para que o peiote seja conservado, o status de partes do deserto como patrimônio reconhecido pela UNESCO deve ser respeitado. “A designação existe há muitos anos, mas nada foi feito para realmente fortalecer a proteção e conservação do peiote”, diz Ruiz Smith. “Wirikuta deve ser reconhecida como área natural protegida em nível federal para melhor garantir sua proteção e conservação.”

Projetos de conservação estão em andamento. Um novo projeto agroecológico de base coordenado pelo Centro de Pesquisa Wixarika busca recuperar o ecossistema dos efeitos do sobrepastoreio e da lavoura.

Carrillo Lopez, parte da equipe por trás do novo projeto, enfatiza a importância do desenvolvimento de modelos regenerativos. “Destruir Wirikuta é destruir os modos de vida dos povos Wixárika e o inestimável conhecimento ancestral passado de geração em geração.”

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