democraciaAbierta: Opinion

Quem fará oposição a Gustavo Petro?

As atitudes radicais – e até caricaturescas – dos opositores do novo presidente colombiano ameaçam o exercício democrático

democracia Abierta
16 Agosto 2022, 12.00
Se María Fernanda Cabal se consolidar como líder da oposição, não só o Centro Democrático, mas todos aqueles que discordam do novo governo correm o risco de perder sua capacidade estratégica de exercer uma oposição construtiva
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ZUMA Press, Inc./Alamy Stock Photo

Desde o primeiro governo do ex-presidente Juan Manuel Santos, a Colômbia tem um Estatuto da Oposição que concede aos partidos legalmente reconhecidos e aos movimentos cidadãos com representação no Congresso o direito a réplica, representação em conselhos de administração, espaço na mídia e financiamento para suas atividades.

Até o momento, o Centro Democrático, partido de direita criado pelo ex-presidente Álvaro Uribe Velez, foi o único a declarar que fará oposição no Congresso ao novo presidente colombiano, Gustavo Petro. Na Câmara dos Deputados, além do Centro Democrático, apenas a Liga de Dirigentes Anticorrupção e o Conselho Comunitário de Comunidades Negras Fernando Ríos Hidalgo, com seu único representante, Miguel Polo Polo, o fizeram.

Ao obter o apoio dos partidos Alianza Verde, Partido de la U, Comunes e Partido Liberal, Petro obteve maioria absoluta no Congresso e na Câmara, um evento sem precedentes na política colombiana nos últimos 40 anos. Nesse contexto, entender como a oposição ao governo se estruturará é essencial.

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Em 8 de agosto, Uribe, apesar de não ser deputado, afirmou que o exercício de oposição será feito de forma "respeitosa e construtiva", compromisso endossado por alguns representantes no Congresso.

O primeiro é Miguel Uribe Turbay, ex-candidato à prefeitura de Bogotá, que afirmou que fará uma oposição "não sectária e proativa, que promova o combate à corrupção, a redução dos salários dos parlamentares, o dia sem imposto e a renda solidária”.

Outro representante é David Luna, senador pelo partido Cambio Radical, que prometeu se opor aos discurso de ódio ou à polarização. "Farei oposição, mas não vou bloquear o país. O trabalho da oposição é construir sobre o que foi construído e gerar espaços de diálogo com quem pensa diferente", afirmou.

O ex-candidato presidencial Rodolfo Hernández, que obteve 10 milhões de votos no segundo turno, disse que também se oporá ao novo governo, mas vem mantendo um perfil discreto após sua derroto eleitoral em junho.

Paloma Valencia, senadora desde 2014 também pelo Centro Democrático, já vem fazendo seu papel de oposição ao pedir cautela em relação à reforma tributária apresentada pelo governo Petro em 8 de agosto. Especificamente, Valencia ressalta a necessidade de que os subsídios sejam temporários e coerentes com realidade fiscal do país.

Fora esses exemplos soltos, a oposição a Petro vem sido liderada por vozes radicais que podem ameaçar o importante exercício democrático de pesos e contrapesos.

Cabal, possível oposição absoluta

Embora Uribe tenha fundado o Centro Democrático, sua atual líder é a deputada María Fernanda Cabal, que já se autoproclamou líder da oposição radical ao novo governo.

Em resposta à promessa de Petro de buscar a paz total em seu discurso de posse, Cabal respondeu que o presidente está vivendo uma ilusão. "O novo governo se engana se pensa que pode negociar com o crime; com a grama da cocaína custando US$ 153 dólares nos Estados Unidos, ao acolher um capo nascerão duas novas cabeças, porque as máfias são como a hidra mitológica", afirmou.

A oposição nascente a Petro mostra que terá duas linhas: a moderada e a radical

Cabal também demonstra temor diante do reencontro entre Petro e "seus velhos amigos da esquerda latino-americana" e de sua possível abordagem das relações internacionais da Colômbia. "Esperamos que não seja nos moldes do socialismo latino-americano mais radical, como Nicarágua e Venezuela. Este último bancado financeiramente pela China, militarmente pela Rússia, politicamente por Cuba e com o estreito apoio do terrorismo iraniano".

Cabal também prometeu fazer oposição ferrenha à proposta de Petro de transferir a polícia do Ministério da Defesa para o novo Ministério da Paz e ao desmantelamento do Esquadrão Móvel Anti-Motim (Esmad).

O que a oposição nascente a Petro mostra é que terá duas linhas: a moderada e a radical. Enquanto a primeira apela à reflexão sobre questões como a proposta produtiva de Petro e o que ele chama de "democratização da economia", que a direita colombiana entende como expropriação. A segunda tem um discurso sensacionalista, que apela ao medo através de comparações com populistas de esquerda como Nicolás Maduro e Daniel Ortega.

Os discursos de Cabal ilustram essa oposição radical. Na Rádio W, um dos programas mais ouvidos pelos colombianos, ela difundiu teorias conspiratórias, incluindo a de que George Soros está por trás do Acordo de Escazú e de que Petro promoverá um regime ditatorial por seu vínculo com a Internacional Socialista.

É fácil encontrar humor nas teorias absurdas de Cabal, que não perde tempo em disseminar caricaturas sobre como o comunismo e o socialismo irão tomar o planeta através de elites bilionárias abortistas. Mas ela é a mesma senadora que defendeu as ações dos militares após a publicação do relatório histórico da Comissão da Verdade sobre os crimes cometidos pelo Exército colombiano no escândalo dos "falsos positivos".

Ela também é a mesma senadora que criticou Uribe por se reunir com Petro, argumentando que o ex-presidente enviou uma "mensagem confusa e incompreensível"; a mesma que chamou o novo ministro das Relações Exteriores, Álvaro Leyva Durán – uma das principais autoridades sobre paz e reconciliação na Colômbia – de chanceler das Farc.

Se Cabal se consolidar de fato como líder da oposição e mantiver o tom radical, não só seu partido, mas todos aqueles que discordam do novo governo correm o risco de perder sua capacidade estratégica de exercer uma oposição construtiva e responsável. Este seria, sem dúvida, um prejuízo para todos os colombianos, que merecem políticos com capacidade de guiá-los nos tempos complexos que se avizinham.

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