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Ainda há esperança de um fim negociado para a guerra na Ucrânia

O risco da Rússia agravar o conflito, inclusive através de armas nucleares, ainda existe — mas o cenário pode ser evitado

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Paul Rogers
19 Maio 2022, 12.00
Vladimir Putin fez um discurso no Dia da Vitória, em 9 de maio
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American Photo Archive / Alamy Stock Photo

O discurso do Dia da Vitória de Vladimir Putin, em 9 de maio, surpreendeu analistas de segurança e comentaristas políticos. A maioria imaginava que o presidente russo declararia vitória em Donbas – independentemente da realidade em campo – e continuaria com a guerra enquanto procura silenciosamente por um acordo negociado, ou convocaria uma mobilização estatal em busca vigorosa da vitória. Não tivemos nem uma coisa nem outra.

Em vez disso, Putin redenominou a guerra na Ucrânia como uma resposta à agressão direta da OTAN, que moldou no contexto da vitória da Rússia na Grande Guerra Patriótica de 1941-45. O líder russo associou a Ucrânia a nazistas alemães, sugerindo uma conspiração para ameaçar a Rússia.

As alegações podem parecer absurdas, mas ajudam a criar uma imagem convincente para muitos russos, auxiliadas pela expansão da OTAN no final da década de 1990 e na seguinte, e pela estreita relação militar forjada entre a Ucrânia e Estados membros da OTAN.

Embora a OTAN não tenha iniciado a guerra, Putin agora enfrenta sua poderosa aliança. Políticos de alto escalão e militares já defendem abertamente a necessidade de reduzir o poder militar da Rússia a ponto de inviabilizar qualquer ameaça aos Estados vizinhos. Isso implicaria o fim de seu regime e uma ameaça existencial a Putin, com todos os perigos que isso acarreta, incluindo o risco de uma escalada nuclear. Para o presidente russo e seus conselheiros faz todo o sentido interpretar a guerra como uma entre a Rússia e a OTAN, com todas as consequências que podem se seguir.

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Putin está agora envolvido em uma longa guerra de atrito, planejando desgastar tanto a Ucrânia quanto a OTAN para pelo menos anexar a região de Donbas e conectá-la à Crimeia. Os problemas são abundantes, com a moral baixa entre as tropas de elite, que já se mostram relutantes em lutar, e uma recente tentativa desastrosa de tomar as cidades industriais de Lysychansk e Severodonetsk em Luhansk.

A Rússia tem outros dois problemas; um óbvio, o outro menos. O primeiro é o nível de recursos oferecidos à Ucrânia, especialmente pelos Estados Unidos, sendo o mais recente um pacote de ajuda de US$ 40 bilhões. Por si só, esse valor é mais do que o dobro de todo o programa anual de desenvolvimento internacional do Reino Unido.

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A segunda vem de dentro da Ucrânia, especialmente dos distritos de língua russa. Um dos erros de cálculo de Putin em fevereiro foi supor que a intervenção russa seria bem-vinda em todo o país. A presunção já era bastante problemática naquele momento, mas hoje está claro que até mesmo líderes municipais de língua russa não querem pertencer à Rússia. Eles certamente querem mais autonomia, mas isso é diferente de serem anexados pelo país vizinho.

Segundo o New York Times, nos primeiros dias da invasão, Oleksandr Vilkul, membro de uma influente família política do sudeste da Ucrânia, “ordenou às mineradoras da região que estacionassem equipamentos pesados ​​na pista do aeroporto da cidade, evitando um ataque aéreo, e nas estradas de aproximação, freando as colunas de tanques. Os pneus foram então estourados e os motores desativados…” e “… a indústria siderúrgica da cidade começou a fabricar barreiras de tanques e placas para coletes à prova de bala.”

No terceiro dia da guerra, o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, nomeou Vilkul como governador militar de Kryvyi Rih, apesar de os dois terem sido oponentes políticos em tempos de paz e a família Vilkul ter manifestado opiniões pró-Rússia.

No geral, embora a Rússia tenha conseguido assumir o controle de partes substanciais de Donbas, está perdendo território perto da segunda principal cidade da Ucrânia, Kharkiv, onde o progresso das unidades do Exército ucraniano pode ser atribuído à sua capacidade de organizar ataques coordenados de várias unidades, em vez de pequenas ações individuais.

A determinação de Putin de continuar com o conflito por meses, se não mais, significa que os militares ocidentais podem evitar o envolvimento direto enquanto coletam informação sobre armas, táticas e moral russas. O ocidente pode explorar esse informação enquanto enfrenta os sucessos russos com diferentes táticas e armas. O objetivo é paralisar a Rússia nos próximos anos.

Um cenário catastrófico pode ser evitado se a guerra transicionar do impasse violento à estagnação

O risco continua sendo que, diante de grandes reveses, Putin escale o conflito, talvez através de manobras nucleares em larga escala e altamente visíveis ou de ameaças de explosão nuclear tática de demonstração se algum ultimato não for cumprido. Vale lembrar que a OTAN e a Rússia há muito mantém uma política de “não primeiro uso” em relação à armas nucleares em caso de derrota em guerra convencional. Nos dias da Guerra Fria, a maioria dos analistas supunha que seria a OTAN que faria isso, mas hoje os papéis foram invertidos.

Tal cenário catastrófico pode ser evitado se a guerra transicionar do impasse violento à estagnação, com cada parte incapaz de ver uma saída. Nessas circunstâncias, as negociações podem se tornar viáveis, e é aqui que jaz um pequeno motivo para otimismo. Algumas guerras recentes chegaram ao fim com acordos negociados, como as da Bósnia e da Irlanda do Norte. A paz estável ainda pode levar anos, mas um corpo substancial de conhecimento e experiência, especialmente através da ONU, pode facilitar soluções.

Dependendo das circunstâncias e da história recente, tal fim pode envolver questões como condições de cessar-fogo, financiamento de reconstrução, arranjos territoriais, segurança e policiamento e governança pós-conflito, em grande parte em prazos acordados que podem se estender por muitos anos.

Mesmo uma guerra tão complexa e cara tem potencial de resolução. As possibilidades já estão sendo estudadas, inclusive em alguns dos poucos centros acadêmicos que atuam nessa área. O trabalho deles é particularmente importante agora, não apenas porque pode ajudar em um eventual acordo, mas também porque nos relembra que conflitos podem ser encerrados sem o desencadeamento de um desastre completo. Enquanto isso, um pouco menos de retórica de vitória iminente dos líderes ocidentais não seria ruim.

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