democraciaAbierta: Opinion

Sociopatia e democracia competem no Brasil

Se Bolsonaro virou pária em todo o mundo, Lula conta com seu prestígio internacional para conquistar votos em outubro

Julie Wark Jean Wyllys
18 Janeiro 2022, 12.00
Jair Bolsonaro durante cerimônia no Palácio do Planalto, em Brasília, em 14 de dezembro de 2021
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Alamy Stock Photo

Às vezes, o micro pode lançar uma luz muito reveladora sobre o macro. A pessoa de Jair Messias Bolsonaro, que se encaixa perfeitamente na definição de sociopata, nos diz muito sobre o sistema político sociopata que o lançou e que ele encarna.

Através do extermínio de espécies, povos, línguas, ecossistemas e culturas, a última manifestação do capitalismo, o neoliberalismo, levou o planeta à beira da extinção. De tão onipresente, o neoliberalismo é quase anônimo.

Seus sintomas são bastante claros: sistemas políticos corruptos, colapsos financeiros, offshoring da riqueza, colapso dos sistemas de saúde e educação pública, crianças armadas matando seus pares, aquecimento global gerando catástrofes por toda parte, pandemias e muito mais. No entanto, esses sintomas são geralmente tratados isoladamente, como se não fizessem parte do mesmo sistema.

Embora seja uma forma monstruosa de engenharia social consciente destinada a concentrar riqueza e poder, o neoliberalismo tende a se apresentar como uma espécie de lei biológica uniformemente distribuída, regida por um "mercado" que mira indivíduos reduzidos a consumidores – e cujas escolhas democráticas são principalmente limitadas para a compra e venda competitiva. Aqueles que não conseguem entrar na competição são deixados para trás.

Quando esse sistema sociopático se reflete em uma pessoa que comete ou incentiva esses crimes, sua malignidade para todos os seres vivos fica escancarada.

Bolsonaro é um sociopata?

Tomemos uma das mais recentes demonstraçôes de Bolsonaro sobre isso. Após semanas de fortes chuvas no estado da Bahia, a barragem de Igua no rio Verruga, perto da cidade de Vitória da Conquista, desmoronou em 25 de dezembro. Uma segunda barragem, principal fonte de água potável de Jussiape, 100 km ao norte, rompeu-se no dia seguinte.

Como resultado das fortes chuvas e inundações, 24 pessoas morreram, cerca de 630 mil foram atingidas, 54 mil foram desalojadas e milhares foram evacuadas de pelo menos 72 cidades em situação de emergência, muitas delas sem eletricidade. Em dezembro, Salvador teve seis vezes mais chuvas que o normal.

Alguns especialistas dizem que o que o governador Rui Costa descreve como o "maior desastre natural da história da Bahia" não foi causado pelas mudanças climáticas, mas sim pelos efeitos combinados das mudanças de temperatura nos oceanos Atlântico e Pacífico e da faixa de nebulosidade conhecida como Zona de Convergência do Atlântico Sul, fenômeno típico desta época do ano. No entanto, seria razoável supor que a atual natureza extrema desses efeitos "usuais" possa estar relacionada às políticas literalmente assassinas do governo Bolsonaro, que foi denunciado pela Articulação dos Povos Indígenas Brasil (APIB) perante o Tribunal Penal Internacional por crimes de genocídio e ecocídio.

As florestas tropicais geram seus próprios sistemas climáticos, incluindo chuvas – fato que não é cientificamente contestado. Dessa forma, a destruição em massa desse ecossistema alteraria drasticamente os padrões climáticos em todo o hemisfério sul e aceleraria os danos climáticos de maneiras difíceis de prever, uma vez que se trata de uma reação em cadeia com consequências globais. Com sua política de destruição, o governo Bolsonaro é um perigo nacional e internacional.

O desmatamento não tem relação com o crescimento econômico. É apenas crime organizado

Desde que assumiu a presidência em janeiro de 2019, Bolsonaro supervisionou a destruição de pelo menos 16 mil km2 de floresta tropical brasileira, um dos ecossistemas mais importantes do planeta. Para o governo, essa devastação significa "crescimento econômico". Mas, como Beto Veríssimo, do Imazon, descreve, "o desmatamento não tem relação com o crescimento econômico. É apenas crime organizado".

Não é por acaso que Ricardo Salles, ex-ministro do Meio Ambiente de Bolsonaro, teve que renunciar após ser acusado de obstruir investigação policial sobre extração ilegal de madeira na floresta amazônica e facilitar a exportação de madeira extraída ilegalmente. Mas isso só aconteceu depois de dois anos permitindo desmatamentos, queimadas e invasões de áreas indígenas, além de bloquear a cobrança de multas, perseguir fiscais e seguir deliberadamente um caminho de devastação ambiental.

Enquanto isso, Bolsonaro literalmente cagou para preocupações ambientais com mais uma de suas sugestões insanas: "é só você fazer cocô dia sim, dia não que melhora bastante a nossa vida".

Perguntas sobre a Covid-19 (só uma "gripezinha", disse no início da pandemia), vacinação e as mais de 620 mil mortes até agora (incluindo um número desproporcional de indígenas) "entediam" Bolsonaro, que não aguenta mais as "frescuras" e "mimimi" a respeito.

Nem sequer o incomoda que sua não-política tenha levado o Congresso a recomendar que Bolsonaro fosse indiciado por crimes contra a humanidade. Assim, Bolsonaro não é apenas um presidente desajeitado, mas um "sociopata sem cura", como disse o compositor Zeca Baleiro.

Foi nesse contexto que o sociopata saiu de férias enquanto ocorria uma catástrofe não natural pela qual ele é o grande responsável, em uma área onde tem poucos votos e uma taxa de rejeição alta. Assim, enquanto o estado da Bahia se afogava, ele foi pescar em Santa Caterina e postou fotos nas redes sociais, enquanto atacava a vacinação contra a Covid-19 de crianças, inclusive usando sua filha de 11 anos, que não será vacinada.

Manobras obscuras e fake news diante das eleições

Em 2018, ano das eleições presidenciais que o levaram ao poder, o volume de fake news quadruplicou. A Agência Lupa, dedicada à verificação de fatos, chegou a recebeu 56 mil ameaças de morte por mês. Jean Wyllys, um dos autores deste artigo, foi uma das vítimas da campanha de ódio e ameaças de morte que o levaram ao exílio.

Agora, diante das eleições de outubro de 2022, pessoas como Steve Bannon e executivos do Vale do Silício estudam como podem usar a desinformação para destruir a vida de críticos indesejados. Bolsonaro elevou a aposta ao tentar limitar a remoção de conteúdo das redes sociais para proteger, segundo ele, a liberdade de expressão de seus apoiadores.

Apesar de o Congresso e o Supremo Tribunal (STF) estarem investigando Bolsonaro e seus filhos por administrar uma rede de notícias falsas, o presidente assinou o decreto em 6 de setembro, pouco antes de seus atos de 7 de setembro em Brasília e São Paulo, uma tentativa de despertar sua base.

Não que ele se importe com o que o Congresso, o STF ou a Constituição têm a dizer. Como está mais preocupado por estar muito atrás do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva nas pesquisas, ele vem usando sua energia para atacar o ministro Alexandre de Moraes, que está presidindo uma investigação sobre fake news.

Além de atacar o ministro do STF, Bolsonaro também aposta muitas fichas no poder de sua fábrica de fake news, o chamado gabinete do ódio, um time de estratégia digital que opera a partir de um sala no palácio presidencial que trabalha com blogueiros e youtubers bolsonaristas e perfis nas redes sociais, incluindo Bolsonaro, seus filhos e simpatizantes, como o descreve Patrícia Campos Mello, autora de "A máquina do ódio: notas de uma repórter sobre fake news e violência digital".

Sua jogada visa encorajar os membros das Forças Armadas, bem como as milícias privadas, a repetir a tentativa de golpe de Trump de 6 de janeiro de 2021

Com suas milícias digitais já em ação e inundando as redes sociais com desinformação e fake news, Bolsonaro efetuou um golpe populista ao fazer com que sua base parlamentar – as bancadas da bala, do boi e da bíblia, a famosa Bancada BBB – aprovasse medidas para aumentar os salários dos militares e policiais federais. Sua jogada augura um plano para encorajar os membros das Forças Armadas – onde o fascismo está profundamente enraizado –, bem como as milícias privadas, a repetir, de forma mais violenta, a tentativa de Donald Trump de 6 de janeiro de 2021 – ou seja, levar a cabo um golpe de extrema-direita. Assim, ele espera forçar a população brasileira a se submeter a seu despotismo.

Com ameaças de expurgos e assassinatos de dissidentes – que já são práticas de suas milícias –, Bolsonaro parece pensar que pode impor, não só a seus compatriotas, mas também ao resto do mundo (especialmente mostrando a outros tiranos que tais coisas são possíveis ) sua negação sobre as mudanças climáticas, sua devastação da Amazônia, seu extermínio de povos indígenas em benefício de pecuaristas, sojicultores e garimpeiros, suas políticas neoliberais de precarização do emprego, suas mentiras e sua constante sabotagem das políticas públicas de saúde, especialmente na pandemia: enfim, suas múltiplas formas de sacrificar os pobres nos suculentos altares dos ricos.

A alternativa, que pode ser trazida pelas eleições de 2022, é um governo presidido por Lula, que já empreendeu uma das tarefas pré-eleitorais mais urgentes: unir um enorme país dividido pelo ódio e mentiras da extrema-direita para obter vantagens eleitorais. Lula está provando mais uma vez que é um hábil negociador com simpatias claramente declaradas. Em recente visita a Paris, onde recebeu o Prêmio Coragem Política da Revue Politique Internationale, o ex-presidente falou de seu amor pelo povo brasileiro, pontuando que o Brasil "é democrata, generoso, trabalhador e não é a ignorância que está governando o Brasil". Ele também defendeu seu projeto de tornar o Brasil uma potência regional que trabalha para o bem do planeta, em especial através da proteção da Amazônia, uma posição oposta a de Bolsonaro, para quem o desmatamento da Amazônia é algo "cultural" que "nunca vai acabar". Se Bolsonaro se tornou pária em todo o mundo, Lula conta com seu prestígio internacional para conquistar votos em outubro.

Lula volta a usar a estratégia que o levou a vencer as eleições de 2002, falando e negociando com vários setores, reunindo forças fora de seu partido (PT), especialmente com partidos do centro do espectro político, o que é mais do que apenas um tática.

Ele está atualmente no meio de conversas com o ex-governador de centro-direita de São Paulo, Geraldo Alckmin, uma manobra que surpreendeu alguns porque as pesquisas sugerem que Lula pode vencer Bolsonaro sozinho. No entanto, "lulismo" é sinônimo de conciliação e aceitação das realidades da vida política brasileira, que incluem uma certa aproximação até mesmo com o Centrão, basicamente um bando de partidos políticos clientelistas conservadores.

Mas sua preocupação é muito mais ampla do que o mero eleitoralismo, uma vez que busca assegurar aos brasileiros que são mais do que peões descartáveis ​​em um cruel jogo oligárquico e reafirmar sua dignidade como cidadãos, restaurando o tecido da democracia que está sendo destruída por táticas fascistas, além de tentar garantir que a classe dominante resista às ameaças de golpe de Bolsonaro e garanta a vontade da maioria nas urnas.

Outra coisa são os militares, suscetíveis após a criação da Comissão de Verdade e Reconciliação por Dilma Rousseff, em 2014. No ano passado, Lula criticou a presença militar no governo Bolsonaro, afirmando que o papel das Forças Armadas está bem definido na Constituição. "É proteger as fronteiras de invasões externas. Tem que tomar conta da fronteira terrestre, da fronteira marítima e do espaço aéreo. E proteger o povo brasileiro. Não tem que se meter em política (...) democracia não comporta um estado civil governado por quase 6 mil militares que estão em cargos de confiança no governo Bolsonaro", pontuou.

Lula deverá restaurar a democracia se vencer as eleições, uma tarefa que compreende colocar o Brasil na vanguarda de um novo tipo de globalização baseada em relações internacionais que respeite a soberania dos povos, erradique a fome e a pobreza em todo o mundo, proteja os direitos humanos, garanta a igualdade de gênero, combata a desinformação, evite a guerra e a violência e trabalhe para restaurar a saúde do planeta.

Bolsonaro, o sociopata, quer exatamente o oposto. E o sistema que ele encarna mostra que a eleição presidencial de outubro afeta a todos nós.

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