Beyond Trafficking and Slavery: Feature

Trabalho e maternidade em meio à violência da fronteira México-EUA

Múltiplas tragédias não impediram esta mãe adolescente de buscar nova vida para sua família na fronteira EUA-México

6 Julho 2022, 12.00
Grafite em Juárez, na fronteira do México com os EUA
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Fernando Loera

Aviso: este relato contém descrições de violência.

Teresa

Não foi ideia minha tentar cruzar a fronteira para os EUA. Foi de uma amiga. Ela disse: “Vamos ver o que há além das colinas”. Eu não queria, mas ela insistiu. Ela disse que alguém lhe explicou como atravessar. Então nós fomos. Rimos o trajeto inteiro.

Tive medo quando escureceu. Eu não conhecia a área e tinha medo que pudéssemos nos perder, ou que alguém aparecesse e fizesse algo com a gente. Lá é muito perigoso. Então comecei a brincar que devíamos deixar a Imigração dos EUA nos pegar.

Até que nos pegaram. Quando minha amiga os viu, começou a correr. Corri atrás dela, mas não chegamos muito longe. Eles nos pegaram, nos fizeram um monte de perguntas e depois nos colocaram em um carro e nos levaram para um escritório. Depois de um tempo, nos trouxeram para a ponte para sermos recolhidas. Nos trataram bem.

Minha mãe me deixou de castigo por dois meses depois disso. Ela disse que estávamos loucas, mas não levei muito a sério. Onde eu moro muitas pessoas cruzam ou trabalham com tráfico de pessoas. Em sua maioria são jovens – têm entre 15 e 20 anos. Faz parte da vida aqui.

Eu gostaria de construir algo que eu possa deixar para meus filhos

Eu terminei a escola primária, mas já estava grávida de quatro meses quando comecei o ensino médio. Ficou muito difícil fazer as lições, então desisti. Também tivemos que economizar para o parto. Custou cerca de 12 mil pesos (US$ 600) e tivemos que vender nosso fogão e geladeira para conseguir o dinheiro.

Eu tenho dois filhos agora: uma filhinha e um filho de dois anos. O pai do menino está morto. Um dia, uns homens passaram por sua casa à procura de um de seus amigos. O cara não estava lá, mas os homens atiraram no meu ex-namorado e nos pais dele antes de partirem.

Agora moro com meus pais. Não trabalho desde que minha filha nasceu e isso vem causando problemas. Meu pai diz que, como não tenho emprego, preciso lavar as roupas deles, cozinhar para todos, etc. Eu os ajudo, é claro, mas ele quer que eu faça mais do que posso. Minha mãe me defende. Ela diz que ele não pode falar assim comigo, que ela está lá para fazer as coisas que ele quer que eu faça. Nessas horas, ele sempre ameaça nos expulsar de casa. Minha mãe é quem mais me ajuda. Ela até parou de trabalhar na maquiladora (fábrica de montagem) para me ajudar a cuidar das crianças.

Trabalho desde os 14 anos. Comecei como garçonete, mas saí porque meus turnos terminavam muito tarde. Depois trabalhei na Movistar (operadora de celular) por um ano, oferecendo promoções e tentando convencer as pessoas a mudarem de operadora. Fui demitida por causa da pandemia, mas gostava daquele emprego. Eu não tinha que ficar no escritório o dia todo e trabalhava com um amigo. Ele também está morto hoje. Ele estava atravessando a rua quando alguém passou atirando de um carro. Uma bala atingiu seu rosto.

Meu namorado e eu gostaríamos de conseguir um lugar para morar, mas ele não ganha muito e temos dois filhos para cuidar. Ele terminou o ensino médio com uma especialização em construção. Agora está trabalhando como pedreiro na reforma de uma casa. Eu gostaria de ter minha própria casa e voltar a estudar. Eu gostaria de terminar o ensino médio, conseguir um emprego para ajudar meu parceiro e construir algo que eu possa deixar para meus filhos. Eu não quero que tenham que lutar como eu.


Esta história faz parte de uma série de depoimentos de crianças e mães que vivem em Ciudad Juárez, na fronteira EUA-México. Todas os menores foram pegas cruzando para os EUA, seja para perseguir aspirações pessoais ou para contrabandear pessoas, e agora estão recebendo serviços de justiça restaurativa da ONG Derechos Humanos Integrales en Acción (DHIA). Os relatos foram coletados juntamente com os defensores do DHIA e foram editados para maior clareza. A ilustração é uma representação fictícia produzida por Carys Boughton (Todos os direitos reservados). O nome do narrador também foi alterado.

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